A epopeia pop pornô de Reinaldo Moraes

Já faz 10 dias que dei adeus à longa viagem de “Pornopopeia” e ainda me sinto imerso naquele universo, submerso naquele ritmo não raro perverso. O último livro de Reinaldo Moraes possui longitudinais 660 páginas e não cansa os olhos, mas sim a mente que não foi projetada para absorver a verborragia de melhor qualidade do personagem (ou do autor).

Deleitando o leitor com uma prosa que ora navega pelos mares do humor e ora pega atalhos para reflexões imensamente realistas da condição humana, Reinaldo criou um herói tipicamente paulistano (por isso também tipicamente brasileiro) cujas características principais – a preguiça e a falta de caráter – o fazem uma espécie de bisneto de Macunaíma.

Aqui não vai ter explicação de enredo. Prefiro apresentar o primeiro capítulo, ao qual farei um haicai tão vagabundo como o personagem principal (quem leu vai entender):

atenção, plateia
essa é a estreia
da pornopopeia

[1]

Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia, não é arte. É – repita comigo - vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor.

Ok, chega de papo. É só dirigir a porra da tua mente pra nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. Podia ser qualquer outro tema, os cristais de Maurício de Nassau, a cavalgada das Valquírias, a vingança dos baobás contra o Pequeno Príncipe. Que diferença faz? Pensa que são os embutidos de frango do Nassau, a cavalgada das mortadelas, a vingança dos salsichões contra o Pequeno Salame. Pensa no target do vídeo: seres humanos a quem coube o karma nesta encarnação de vender no atacado os produtos da Itaquerambu.

Pensa no evento em que o teu vídeo vai passar – vários eventos, aliás, todos no mesmo dia em todas as filiais do Brasil. Os seres humanos vendedores de embutidos verão teu vídeo e serão apresentados ao salsichão, ao salame e até à mortadela de frango, heresias saudáveis em matéria de junkyfood que a Itaquerambu vai lançar no mercado. Mesmo a tradicional salsicha e a insuperável lingüiça de frango vão ser relançadas com outra formulação, segundo eles dizem. Quer dizer, em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino, mais uma contribuição da Itaquerambu para um planeta sustentável.

Porra, mas eu sou cineasta, caralho. Artista. Não nasci pra rodar vídeo institucional.

E de embutidos de frango, inda por cima, caceta!

Calma, calma. Pensa que o teu vídeo será visto “de Passo Fundo a Quixeramobim, do Rio de Janeiro a Corumbá”, como disse o Zuba, ao sentir minha reação pouco eufórica diante do tema. “E capricha na linguagem brasileira universal, tá?”, foi o que ele me pediu, como se linguagem brasileira universal fosse uma das opções do Final Draft ou do Magic Screen Writer. Você clica em LBU e seu texto será entendido nos pampas, serrados, praias, selvas, semi-áridos e caatingas do país, sem contar os aglomerados urbanos e seus múltiplos guetos. Teu único filme de cinema até agora, por exemplo, nunca passou em tantos lugares ao mesmo tempo. Na caatinga, por exemplo, nunca foi visto. Não que se saiba.

Volto a perguntar: qual a diferença entre arte e embutidos de frango? Ou melhor: por que embutidos de frango não podem se transformar em arte?

Mas não precisa pensar nisso agora, nem em merda nenhuma que não seja frango embutido. Faz logo essa porra, porra. É bico: oito minutos de duração, um curta-metragem. Não vai matar o artista que há em você, amice. Ou havia. Ou nunca houve nem haverá. Foda-se.

É isso aí: vídeo institucional, embutidos de frango, Granja Itaquerambu. Beleza.

O que fode é o prazo. Sempre a porra do prazo. Tá ligado que esse roteiro tem que estar escrito, aprovado, rodado, entregue em mídia DVCAM, e exibido pros vendedores até 15 dias antes do lançamento da campanha na mídia? Ou seja, daqui a nove dias. Você devia ter chamado um bosta dum roteirista qualquer pra te ajudar, desses que filam cigarro e cerveja de mesa em mesa na Merça e não perdem chance de puxar uma lousa e dar aula sobre Hal Hartley e a narrativa cinematográfica interior aos substratos descontínuos da consciência dos personagens pra alguma gostosinha basbaque de peitinhos soltos dentro de uma camiseta de pano fino. Conheço vários roteiristas desse naipe. Dúzias deles, na verdade. Tudo uma corja de bebum cafungueiro desempregado du caraio. Por uma peteca de pó e duas Original você contrata na hora um deles. Se calhar, o infeliz ainda leva teu carro no mecânico pra trocar a fricção e te faz o obséquio de encarar uma fila de banco pra pagar tuas contas atrasadas.

Bullshit. Não preciso, nunca precisei de roteirista nenhum. Merda por merda, deixa que eu mesmo chuto. Só que dessa vez travei geral. E o cara da Itaquerambu tá no pé do Zuba, que tá no meu pé, que tô em pé de guerra com os embutidos de frango. Ridículo, isso. Fala sério: nem uma réles ideiazinha pro vídeo pintou ainda na tua cabeça, meu filho. Nem a porra duma idéia de merda.

Pois é, nem a idéia.

Tá foda.

Embutidos de frango.

Foda.

Se você chegou até aqui, é porque merece saber que Reinaldo escreveu outros dois livros, “Tanto Faz” e “Abacaxi”, ambos nascidos na década de 80 e que em 2010 ganharam nova edição pela Companhia das Letras. 


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Os livros de março

Apesar de praticamente desconhecida do público em geral, a graphic novel Avenida Paulista é um clássico dos quadrinhos nacionais e objeto de desejo em qualquer sebo que preste. Ela foi publicada em 1991 em uma edição especial da Revista Goodyear, de circulação restrita e, ao longo dos últimos vinte anos, tornou-se objeto cultuado e cobiçado entre colecionadores, além de marcar o início de um longo período de afastamento das HQs de um dos maiores quadrinistas brasileiros.

Mesclando pesquisa histórica e iconográfica e o cenário de delírio e fantasia característico dos trabalhos de Luiz Gê, o álbum narra cem anos de transformações ocorridas na avenida que simboliza como nenhum outro lugar o progresso e o caos de São Paulo.

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Esta edição especial apresenta ao público brasileiro, pela primeira vez, a novela Os Filhotes, de Mario Vargas Llosa, com imagens do fotógrafo catalão Xavier Miserachs. Lançado originalmente na Espanha em 1967, o livro fazia parte da coleção Palabra e Imagen, criada no início da década de 1960 por Esther e Oscar Tusquets na editora Lumen.

Neste relato, publicado em 1967, o escritor peruano retrata a alta burguesia limenha com uma narrativa vibrante e ao mesmo tempo nostálgica. As imagens de Xavier Miserachs traçam essa mesma história de transição adolescente, mas ambientada na Espanha e com outros personagens – as duas narrativas, embora correndo em linhas paralelas, transmitem o mesmo ímpeto. __________________________________________________________________
De narrativa original e cheia de referências à cultura sul coreana, Por Favor, Cuide da Mamãe conta a história de Park So-nyo, moradora de uma aldeia no interior da Coreia do Sul e mãe de cinco filhos já crescidos, que desaparece ao chegar a Seul para visitá-los. Como fez a vida toda, o marido, com quem Park é casada há mais de 50 anos, simplesmente supôs que a esposa o seguia e a deixou para trás numa estação de metrô. Essa é a última vez que Park é vista.

Enquanto a procuram pelas ruas da cidade, o marido e os filhos relembram a vida de Park So-nyo e repassam mentalmente tudo o que não disseram a ela. São essas vozes que revelam os desejos, as dores e os segredos de uma mulher que ninguém nunca conheceu de verdade.

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Pressa prega peças

Kath Bloom canta em meus ouvidos enquanto digito essas mal pensadas linhas. Mal penso, mas penso, e isso já é alguma coisa. Penso em Juliana, a menina morta por um ônibus. Quem errou (alguém acertou?). Não me importa. Não se pode dizer que ali se travava uma briga entre bicicleta e coletivo, como se um fosse a favor e outro contra o trânsito, porque o próprio ônibus é uma tentativa de amenizar o problema de muita gente nas ruas precisando ir pra lá e pra cá todos os dias (no caso de São Paulo, todos os dias e todas as horas).

Ou seja: ônibus e bicicleta estão, teoricamente, do mesmo lado, hasteando bandeiras em que se lê “deixe a merda do seu carro em casa”.

O problema é a porra da pressa, cara. Tá todo mundo ali voando contra o tempo – porque se você apenas correr contra o tempo fatalmente chegará atrasado. Aquele motorista tava com pressa. A galera dentro daquele ônibus tava com pressa. Provavelmente a Juliana estava com pressa. Você já saiu de casa com pressa hoje?

A pressa nos sobe à cabeça como a raiva que aparecia quando éramos crianças e víamos nossa paquerinha na festa de papo solto com o mais idiota dos meninos. Iniciamos um processo que culminará na irracionalidade, e tudo sem perceber: não medimos o passo, esquecemos quem somos, não sorrimos e só lembramos pra onde estamos indo ( no caso da festa, quase sempre o melhor era ir embora pra casa tentando acender um cigarro amassado no caminho. Em São Paulo, é sempre a porra de um lugar que, de verdade verdadeira, não gostaríamos muito de estar a caminho.)

Se São Paulo fosse um torneio, você ganharia pontos a cada vez que chegasse ao seu destino final em menor tempo.

Por isso gostamos tanto de morar ao lado do trabalho, ir na padaria que fica logo na esquina, no shopping que está há 10 minutos de carro e no cinema dentro do shopping. Invejamos quem mora ao lado do metrô. Nos parabenizamos e nos sentimos como colegiais estúpidos abrindo cervejas escondidos no fundo da sala de aula quando colocamos nosso carro em uma via sem trânsito.

E assim, sem perceber, vivemos numa cidade do interior dentro da capital. Pense duas vezes, então, antes de se gabar para um caipira natural de Franca, por exemplo, de que você vive numa cidade grande.

Aqui são 14:21 de mais um sábado quente. Kath Bloom segue cantando. Será que a Juliana cantava baixinho quando estava no laboratório? Será que o motorista do ônibus é daqueles que cantam enquanto dirigem aquele carro gigante?

PS: com pressa de deixar a prefeitura para se candidatar logo ao governo do Estado, o prefeito Gilberto Kassab não se pronunciou sobre o caso.

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Os livros de fevereiro

Marcos Augusto Gonçalves conseguiu uma pequena proeza em “1922, A Semana Que Não Terminou”: unir fluência narrativa com uma consistente pesquisa histórica. O resultado é um livro necessário para iniciantes no tema e interessante para os que se consideram entendidos.

Com base em ampla pesquisa, extensa bibliografia e entrevistas com especialistas, o livro – que também traz fotos e reproduções – o livro descreve as famosas jornadas que animaram o Teatro Municipal nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, durante o festival que ficou conhecido como Semana de Arte Moderna. Ao mesmo tempo em que reconstitui passo a passo o evento, o autor despe o episódio de mitos que o foram cercando ao longo do tempo.

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Durante a guerra franco-prussiana, dez moradores da cidade de Rouen, ao fugir do exército invasor, são reunidos ao acaso dentro de uma diligência. Junto a estes fugitivos está a prostituta Élisabeth Rousset, apelidada Bola de Sebo. A personagem, que encarna a figura do herói neste texto de Guy de Maupassant,  salvar a vida dos companheiros de viagem mas, quando lhes deixa de ser útil, volta a ser desprezada.

A morte do autor é tão digna de nota quanto sua obra. Depois de sobreviver a dois tiros de pistola que desferiu em si mesmo na tentativa de provar-se imortal, Guy fere-se na garganta com uma espátula pronto a se declarar invulnerável, mas o sangue jorra aos borbotões – e este foi seu fim.

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Leonard Cohen estava prestes a completar 30 anos quando escreveu “A Brincadeira Favorita”, livro de estreia do cantor americano que a Cosac Naify traz para o Brasil em edição – como de costume – bastante caprichada.

O leitor segue a trajetória de Lawrence Breavman, desde a adolescência em Montreal no final dos anos 40 a suas aventuras afetivas e literárias em Nova York, em meados dos 50. Nesse período, Lawrence perde o pai, elabora suas primeiras brincadeiras sexuais, afina a elegante ironia e as dúvidas existenciais com o amigo Krantz, enfrenta a loucura crescente da mãe, publica um bem sucedido livro de poemas, envolve-se com Tamara, Shell, Lisa, Wanda… até que um episódio trágico numa colônia de férias o faz repensar a vida.

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O novo tempo de Chico Buarque

Dia Voa” é o nome do documentário que foi postado no Youtube nesta segunda-feira pela gravadora Biscoito Fino. O filme revela os bastidores das gravações do último disco de Chico Buarque, “Chico”. Algumas passagens já rodaram a web, mas há trechos inéditos que apresentam novos olhares sobre o processo de composição do álbum.

A direção do documentário é de Bruno Natal. Dá uma olhada:

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O outro futebol do interior – Guaratinguetá x Corinthians

* por Rafael Michalawski

Ir a um jogo de futebol com os amigos é sempre divertido. Corinthiano que sou, estou acostumado a frequentar o Pacaembu e, claro, já fui ao Morumbi e ao Parque Antártica. Mas esta semana passei por uma experiência bem interessante. Em pleno aniversário de São Paulo, deixei a terra da garoa rumo à Guaratinguetá para assistir ao jogo do Timão contra a equipe da casa.

Esqueça de tudo o que você está acostumado com os jogos da capital. Interior é diferente.Vou tentar contar aqui algumas coisas muito engraçadas e curiosas que presenciei.

Quando o time local recebe um time grande, a cidade para em função dessa partida. Os ônibus de linha estampavam em seu luminoso a frase “Vai Guará”, intercalada com a mensagem do número e nome da linha. Chegando ao estádio os flanelinhas não dão trégua. Só que lá você só paga na saída. E acredite: eles estão lá na saída! Não abandonam seu pobre carro.

Dentro do estádio o time visitante tinha a maior torcida. A imensa maioria das pessoas estava na torcida pelo Timão. O campo também tem suas particularidades. Metade da arquibancada consiste em um verdadeiro barranco. Cuidado ao comemorar o gol do seu time: você pode levar um tombo. Por falar em gol, o placar do estádio é manual, de papel (conforme conta a foto). A cada gol, havia um cidadão que subia na escada e trocava o número do placar.

Terminada a pelada fomos embora, com as pernas doendo (obrigado sr. barranco !!). No caminho, os moradores das redondezas do estádio estavam sentados nas calçadas em cadeiras de praia observando o movimento e alguns até te desejavam “boa noite”. Pensei na hora em São Paulo, onde quem mora perto dos estádios tranca a porta e tira o carro da rua “por segurança”.

Recomendo a todos aqueles que gostem de futebol que, uma vez na vida, façam essa “aventura” e assistam a uma partida do seu time do coração numa cidade do interior de São Paulo. Se você não quiser se deslocar muito, pode ir até na Rua Javari na Mooca assistir a um jogo do Juventus. Mas, essa história fica para um próximo relato …

Rafael Michalawski é jornalista de formação, habitante clássico da Mooca, habitué de formaturas, festas de casamento e chás de bebê e um torcedor respeitvavelmente fanático pelo Corinthians.

Ele escreveu esse texto a convite do Pitacos Perdidos. Aqui você encontra mais trabalhos assinados por ele: http://pitacosperdidos.wordpress.com/author/rafaelmsp/

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Céu no Retrovisor

Céu - Caravana Sereia Bloom

Saiu ontem o primeiro clipe do novo álbum da belíssima cantora Céu, “Retrovisor”, que abre os trabalhos do terceiro álbum da paulistana Maria do Céu Whitaker Poças. O novo disco se chama Caravana Sereia Bloom e chega às lojas no próximo dia 14 de fevereiro, com a promessa de superar em qualidade seus dois trabalhos anteriores, o auto-intitulado Céu (2005) e Vagarosa (2009).

O clipe tem direção de Renan Costa Lima e Ivo Lopes Araújo, o segundo também diretor de fotografia, e figurino de Isadora Gallas. Retrovisor foi todo filmado na região de Vila Velha, na Ilha de Itamaracá, no litoral de Pernambuco, cerca de 50km da capital Recife.

Logo acima você vê a capa (meio óbvia, não?) de Caravana Sereia Bloom e abaixo você assiste a Retrovisor, primeiro clipe do novo álbum de Céu.

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