poema escondido nas palavras cruzadas do jornal de ontem

a menor quantidade de uma substância simples

o escritor carioca Comparato

o mecanismo que imprime a um barco a direção da rota

noz também chamada nogueira-americana

heroico, fabuloso

satisfeito, contente (figurativo)

um objeto qualquer

as iniciais da atriz Thurman

a peça de roupa que cobre a cintura e as pernas

o saquinho com ervas aromáticas

conjunto de três coisas

elevar, erguer novamente

o nome da letra K

mítico heroi e caçador troiano, transformado em cervo e devorado por seus próprios cães

pessoa viciada em crack (gíria)

elemento químico usado em medicina como germicida

onomatopeia do canto do grilo

o nome da atriz Wilma

registro geral

tecido durável

*

foto: Alessandro Simonetti (EUA)

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a carruagem do despedaço

A segunda vez que todo mundo lá em casa concordou com alguma coisa foi por causa do Stuart.

Não é que só houvesse discordâncias. Mas até ali a unanimidade era uma benção que caía sob nossas cabeças apenas em ocasiões corriqueiras, como quando definíamos em uníssono o sabor do sorvete que a mamãe deveria comprar no supermercado, ou então ao percebermos, durante um almoço de terça-feira, termos todos a mesma impaciência com a personalidade irritável da síndica do prédio.

Não há dúvidas que o Stuart precisava mesmo ser uma grande decisão coletiva.

Porque ter o Stuart era: trazer-um-cachorro-para-dentro-de-um-apartamento-onde vivem-Dois Adultos Não Totalmente Fãs de Cachorros Especialmente a Mulher com Duas Crianças Relapsas e Um Adolescente Em Início de Rebeldia.

Já a primeira vez que todo mundo concordou com alguma coisa foi quando o papai perguntou se a gente queria ir pro sítio do Samuel.

O Samuel era amigo do papai mas ele se parecia mais com a gente, porque:

– seus cabelos sempre estavam despenteados, como os nossos ao acordar;

– ele tinha um sítio com cavalos, seringueiras e lareira, e ele dizia que a gente podia fazer tudo o que quiséssemos, e isso é precisamente o que as Crianças achavam que deveria ser o primeiro mandamento do universo caso ele não fosse governado pelos Adultos.

Então vamos pro sítio? Entrávamos no carro em algazarra organizada – sim, porque éramos Crianças mas Crianças Com Conhecimentos Básicos, e sabíamos que qualquer erro do nosso time poderia culminar na temida Irritação dos Adultos, um fenômeno capaz de gerar catástrofes interplanetárias que começavam com a frase “ah, é?, então não vamos mais”.

E a estrada, ainda que curta, desdobrava-se em paisagens que de tão estonteantes nos serviam como sedativos naturais.

Nunca levamos o Stuart para o sítio do Samuel. Nessa época, o papai e o Samuel não eram mais amigos. Uma briga boba, eu acho.

Mas também nunca levaríamos o Stuart para lá pelo mesmo motivo que nunca o levávamos a nenhum lugar público: o bicho latia sem parar pra qualquer coisa que se movimentasse, especialmente motos, e nesses espaços abertos tudo que ele fazia era latir e correr, latir e correr. Às vezes engasgava. E depois latia e corria.

Quando mudamos do apartamento para uma casa com jardim, especificamente a questão latir de maneira endiabrada nunca se alterou.

Ficamos uns 5 anos sem notícias do Samuel. Então um dia, em meio à fumaça artificial que planava pelo salão de uma tradicional festa de debutante interiorana, o Adolescente Agora em Fase Já Avançada de Rebeldia avistou o velho amigo de seu pai.

Reconheceu-o no mesmo instante.

Os mesmos cabelos despenteados.

Aproveitando que há pouco havia logrado um honroso terceiro lugar numa competição envolvendo grandes copos de vodka, e agradecendo à nuvem de gases que ocultava do público seus movimentos titubeantes, o Adolescente Agora em Fase Já Avançada de Rebeldia caminhou passos confiantes até encontrar Samuel no fundo do salão. Parou a mão em seu ombro e disse, teatral: lembra de mim?

Samuel demorou a reconhecer aquele menino que tinha somente o topete do cabelo pintado de amarelo.

A ficha do Samuel caiu segundos depois, e eles se abraçaram. O Adolescente, agora já não tão corajoso de sua capacidade de falar frases com sentido e ao mesmo tempo permanecer em pé, resolveu escapulir logo dali e terminou o encontro enfumaçado com um “só vim aqui pra falar deixa de besteira vocês dois”.

Dias depois, papai entrou na sala e perguntou: quem quer ir pro sítio do Samuel?

No domingo seguinte, papai e o Samuel passaram a noite bebendo e relembrando histórias. Na quarta-feira, também. Na quinta. No sábado. Na semana seguinte. Na outra. E assim pelos anos seguintes. Viajaram juntos. Chegaram a fazer planos ensandecidos de ir ao México de carro.

Um dia, Samuel contou que estava doente.

Já o Stuart nunca ficou doente.

Numa segunda-feira de muitos anos depois, o Pai ligou para o Adolescente, agora já um Adulto Convencional Com Poucos Brilhos de Rebeldia, para anunciar que não havia mais esperanças. Era só uma questão de horas para o Samuel.

Às 6h29 da terça-feira, o papai tomou seu café pensando sobre como é estranho pro coração da gente a coexistência do desengano e da fé. Abriu a porta do quartinho onde ficava a casinha do Stuart. O cachorro se espreguiçou calmamente e deixou o casulo. O forte frio que fazia naquela manhã deixava seu andar mais vagaroso. O Pai e a Mãe deram-lhe comida e água, e foram trabalhar.

Às 11h18 daquela terça-feira, o Stuart avistou dois passarinhos sobrevoando o jardim. Apesar da idade avançada, ele nunca se furtou a correr atrás de qualquer coisa que se movimentasse. Deu o primeiro pique e viu os pássaros sumirem pra depois do telhado. Stuart gostou da sensação de correr no frio, daquele calor deslocado. Pensou em ficar à espreita para quando as pequenas aves retornassem. Mas sentiu-se cansado. De novo. Já não era de hoje. Resolveu se deitar no chão um pouquinho. E dormiu.

Às 17h44 daquela terça-feira, deitado na cama do hospital, Samuel teve um sonho curioso. Era manhã. Muitas pessoas no sítio. Música. Uma festa. Caminhava por entre eles. Logo avistou uma cadeira, e sentou-se. Todos se viraram para vê-lo. Foi só então que reparou quem estava ali: sua mulher, suas filhas, seus netos, seus amigos da primeira escola e os que conheceu na última viagem. E o papai. Todo mundo lhe sorria com muita tranquilidade. Sorrindo de volta, Samuel sentiu o corpo serenar. Encostou-se na cadeira. E dormiu.

 

*

“now we rise

and we are everywhere”

[nick drake – from the morning]

dois exercícios no laboratório secreto

aula número 1 | curso: Laboratório Secreto (Invenção na Literatura Hispano-Americana)

exercício: você está numa nave em direção a Marte. a nave começa a pegar fogo. você precisa mandar uma última mensagem pra Terra. 

Alô, alô, humanos, é o seguinte: tá pegando fogo em tudo aqui. Não vou conseguir chegar em Marte. Essa é a minha mensagem pra Terra, tá? Me desculpem. Agora eu me dirijo à maior responsável por toda essa loucura. Mãe, deu tudo errado, mãe. A gente nunca devia ter mexido nas coisas do vovô. A gente sempre soube que ele era maluco. Eu sei, você vai falar “mas todos os testes que fizemos com essa nave no galpão do sítio deram certo”. Eu sei, mas a gente não sabe nada de aeronaves, nem ele sabia nada, ele achava que sabia. Eu sei, você vai falar “mas ele deixou todos aqueles manuais detalhados”, eu sei, a gente costumava destrinchar juntos aqueles compêndios, sempre depois dos almoços de domingo, lembra? Eu também acreditei neles, e na verdade, bom, eu vou morrer mesmo, então, mãe, a verdade é que tudo ia muito bem na viagem pra Marte, passei por vários planetas e tudo certo, cruzei estrelas e tudo certo, ganhei confiança, relaxei, resolvi botar um som e fumar um cigarrinho, e aí o que aconteceu? Passou uma nave a milhão na minha frente – sim, você ia adorar ver isso, tem várias naves rodando esse mesmo caminho, o vovô deve ter feito algum curso à distância ou algo assim – e eu assustei, o cigarro caiu no chão e… bom, cê entendeu. Beijo, mãe, e se eu fosse a senhora eu parava de fumar imediatamente.

aula número 2 | curso: Laboratório Secreto (Invenção na Literatura Hispano-Americana)

exercício: dar voz e desejos humanos a um objeto

Sou um saco plástico. Mas nunca fui lixinho, graças a Deus. Dei sorte: no meu primeiro dia de supermercado, o Julio me pegou pra carregar uma garrafa de whisky. Depois me pôs no carro e após uma longa travessia, paramos no meio do nada. Ali vivemos juntos por dias. Em seu acampamento solitário, ele me deixava voar ao sabor do vento, mas nunca muito longe. Ele sempre me pegava no ar e me trazia de volta. Um dia, ele me amarrou com delicadeza no galho desta árvore aqui, e disse:

– Vou embora. Mas eu volto, e é você que vai me lembrar onde fica o meio do nada.

Desde então, passo os dias na espera e gosto mais quando os carros passam com crianças dentro. Elas olham pra mim com curiosidade. Nenhum irmão meu deve saber o que é isso.

***

arte de sarah nicole philips

quatro pontos dentro da curva

Taste-of-Cherry-2

“Agora penso que é bom perder a confiança no solo, que é necessário saber que de um momento para outro tudo por vir abaixo”. (Alejandro Zambra em “Formas de voltar pra casa”).

[um: rua, olho, sugestão]

Sumirê

É o nome de uma perfumaria

Na rua Teodoro Sampaio

Amanhã passo lá

E pergunto se eu posso

Usar esse nome

Num poema sem qualidade

Cuja única ambição

É achar uma expressão

Que dê conta

Dessa vontade

De virar folha em branco

[dois: observação, imaginação, ação]

Sábado, 25 de março de 2017, 6h30. Bahia acorda e a primeira coisa que seus olhos registram é o teto branco do seu quarto. Repara no branco – acha-o muito bem pintado. Toma um banho rápido, veste as roupas de trabalho, bebe um café na velocidade de um suspiro, escova os dentes, não dá tchau nem para a mulher, nem para os filhos, menos por descuido do que para não acordá-los, ganha a rua, caminha até o ponto de ônibus, espera sete minutos e trinta e quatro segundos até que o carro pare na sua frente e ele se deixe entrar, pagar a passagem e sentar na poltrona do fundo, a última, o que lhe recorda os tempos de escola, quando chegava na sala de aula também muito cedo, também muito disposto, e se escondia lá atrás onde a professora não pudesse vê-lo. Mais de uma hora depois, Bahia desce do ônibus e caminha por treze minutos e cinquenta segundos até parar em frente ao prédio localizado à rua Girassol, número quatrocentos e oitenta e oito, onde, das nove ao meio dia, Bahia fará com que a vida dos moradores do apartamento cinquenta e um fique um pouco mais colorida, porque, por suas mãos, uma mesa branca será a partir de agora reluzentemente amarela e uma porta de um marrom taciturno deixará pra trás qualquer vestígio de marrom ou taciturnidade porque pelas mãos de Bahia agora ela é verde clarinha, clarinha.

[três: memória, busca, coração]

Lembra de você me chamando pra ir ao cinema depois de amanhã? Você falava outra língua e eu temia a minha má tradução. Dois dias depois, você estava lá, e eu agradeci silenciosa e efusivamente à professora Maria Laura Rodrigues Alves.

[quatro: ontem, hoje, agora]

Vivendo eternamente dentro do peito do homem, suas versões passadas raramente celebram em conjunto. Isso se dá, e não deixa de parecer óbvio, porque cada um dos que protagonizou a vida do homem antes do momento presente são de idades, épocas e culturas diferentes. A sua variante criança, por exemplo, adora quando os domingos passam devagar na mesa da cozinha da avó. Já o adolescente não suporta uma coisa assim – preferia jogar videogame com alguns amigos, o que desagrada em completo seu sucessor, o universitário, que vê nesse ato um desperdício de tempo enquanto questões políticas, sociais e espirituais clamam por atenção. De modo que ao homem era impossível não notar o que se passou hoje: normalmente barulhentos dentro do seu coração, todos eles amanheceram em festiva harmonia. A mulher, que estava à frente do homem naquele momento, os olhos plantados nos seus, não sabia nada disso, mas sorria.

“How is it feel to disappear?

Seriously, just disappear?” (The Acorn, “Oh! Napoleon”).

*

imagem: Taste of Cherry / 1976 / Abbas Kiarostami

nada além da estrada [uma fabulosa viagem]

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[Londres, onze de dezembro de dois mil e dezesseis]

vai andando até acontecer o que mais desejava: se perder. não sabe onde está e não sabe voltar para onde estava. tampouco sabe pra onde gostaria de ir. nenhum caminho é um caminho. nos fones, a voz preferida parece cantar o que ele vê, “its quiet here, i look thru my glass at patterns all so well defined, please send my winter coat soon as you can, i find I have no other lines”. encontra um café. a atendente mais bonita de todas lhe abre a porta, mira o livro que ele carrega nas mãos e sorri-lhe o sorriso perfeito, aberto, quente como está lá dentro em comparação com a rua, onde os poucos graus que restam castigam-nos até o humor. não sabe se ela sorri porque a capa do livro é excessivamente colorida, tipo carmem miranda, e imagina que os gringos ainda devem reter esse tipo de imagem enclichezada de nossos trópicos – como a teimosa admiração pela bossa nova. senta-se na mesa mais próxima à porta, tira a mochila tira a blusa tira os fones e no rádio do café vai tocando aquela música que a gente dança em formatura, “hey baby, i wanna know if you would be my girl”, e ele sente vontade de levar a atendente prum baile daqueles, gravata na cabeça, copo balançando na mão, a maquiagem dela já toda borrada, mas não dá pra continuar imaginando mais nada porque ela se aproxima e quer saber: lunch or breakfast?

pra ouvir: the scientist writes a letter

[Porto, dezesseis de dezembro de dois mil e dezesseis]

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caminham como se não houvesse porque não caminhar. deixam que o instinto seja a voz principal na descoberta de uma cidade. a identificação com uma cidade se dá pela sua disponibilidade em percorre-la, é o que eles filosofam enquanto miram quietos as casas coloridas, enquanto escutam as conversas do lado de dentro dos balcões dos cafés, enquanto percebem os motoristas a fumar dentro dos seus carros com vidros fechados. as roupas pra fora das janelas denunciam a vida comum que transcorre por ali todos os dias, e eles veem a beleza do viajar exatamente nisso: quem seríamos nós se aqui vivêssemos? onde estaríamos? que camisas deixaríamos a secar para a rua? o vento sopra mais forte. o sol vai se por. eles pensam na mãe.

pra ouvir: ai quem me dera rolar contigo num palheiro

[Londres, vinte de dezembro de dois mil e dezesseis]

a cabeça está como um quarto quente e vazio que não quer receber móveis. é um quarto, não fala, é claro, mas comunica-se, como a chuva que se faz anunciar sem manejar alfabeto. e o quarto diz sem curvas: dê-me a ausência, dê-me o silêncio, dê-me o nada. lhe agradeço pelas paredes a aquecer e pela vista da janela de onde atiro os olhos para o longe como se fosse alimento.

pra ouvir: summer dress

[Londres, vinte e quatro de dezembro de dois mil e dezesseis]

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vou esperar vocês aqui nesse café, digo, mas logo depois estou fora do café, estou de volta à rua e começo então a trabalhar neste que tem sido o grande objetivo das minhas viagens: me perder. não é tarefa fácil, veja, porque o ser humano é complicado até em missões de fracasso. é de sua natureza começar a reconhecer lugares e nomes e padrões arquitetônicos que passam a lhe guiar ainda que informalmente, ainda que intuitivamente, de modo que é preciso estar atento até para se perder, como afinal, deve-se estar para tudo que se passa nesse mundo. dobro a esquina e vejo que a rua que se apresenta a mim é longa demais, o que significa que não há retornos fáceis, o que significa que está aí uma boa rua para o grande objetivo da boa viagem. não vou dar em lugar algum, por isso sigo. alguns passos depois descubro uma pequena passagem chamada Colville Place, não há nada acontecendo ali, então entro, e em poucos metros aquela estreita rua me mostra portas coloridas (sete portas, cada uma de uma cor, a vizinhança parece dialogar acerca das questões estéticas da pequena rua – um parêntese dentro do parêntese: será que alguém lê isso aqui até o fim?), o bar onde George Orwell e Dylan Thomas beberam por anos a fio, uma loja de música dirigida por filipinos, uma galeria de pôsteres musicais (aproximo o rosto da vitrine para ler o aviso em papel colado na vitrine: “abrimos de segunda à sexta, e às vezes aos sábados, se estivermos de bom humor”), uma casa de janela aberta me apresenta sua sala lotada de livros e abajures e sua cozinha com poucos armários e uma xícara de café a descansar na mesa branca, não há ninguém lá dentro, não há ninguém na rua e por isso eu canto em voz alta um dia em Provença perto de Brignoles o primeiro homem a pisar no sol só pra ver o gelo da dor derreter.

pra ouvir: um dia em provença

[Berlim, vinte e oito de dezembro de dois mil e dezesseis]

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[1] morro de estúpido espanto: Berlim não é em preto e branco. [2] a cidade apresenta uma nova definição pra liberdade: depois de visitar os museus do holocausto, eu posso caminhar e ninguém pode me parar. [3] estar entre irmãos é mergulhar profundamente e às vezes a profundidade é maior que a cidade. perco o ar. mas há sempre eles para emprestar-me o respirar. [4] caminho por ruas históricas e penso: qual seria a minha se eu tivesse nascido aqui? ainda ouviria as mesmas músicas? haveria em mim o dom de desenhar? teria curiosidade sobre o brasil? [5] em 1941, a família krelitz vivia tranquilamente: o pai e a mãe vendiam pães, as crianças brincavam nas ruas e sempre chegavam em casa sujas de terra, para alegria da mãe e desespero do pai. até que um dia todos foram mortos uns em frente aos outros. meu estômago pesa. [6] pra Berlim / as ruas significam você / mas e pra mim? / fim

pra ouvir: april fool

[Algum ponto entre Edimburgo e Londres, primeiro de janeiro de dois mil e dezessete]

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O ônibus entra na estrada. São 10 horas da noite, está bastante escuro lá fora e eu quase não posso enxergar as paisagens rurais que passam pela minha janela. Gostaria de vê-las, é certamente uma das visões que eu mais desejei conhecer nesta viagem, então redobro o esforço do olhar. Tento divisar os elementos: aquilo ali no meio da penumbra são árvores? Acho que agora vi uma casa. As luzes parecem acesas. A paisagem possível aos olhos é na maior parte do tempo a de um pasto imenso que, imagino, deve ser brilhantemente verde, porque no inverno todas as cores brilham mais. Uma das coisas que mais gosto é ouvir música enquanto estou viajando, especialmente quando estou num ônibus. Me encanta – e devo dizer que talvez eu seja algo abençoado nesse quesito – como quase sempre a sequência aleatória das canções acaba por formar uma poderosa narrativa, às vezes casando-se com a paisagem, às vezes encontrando-se com temas que meu espírito está a aquecer; porque isso também gosto de fazer enquanto viajo de ônibus: deixar que meus pensamentos flutuem livremente, como quando dizemos às crianças que elas podem fazer o que bem entenderem. “Estou perdido no setor de mansões isoladas”, canta Ruspô em “Brasília é Luísa”, e eu estou perdido em algum ponto da Escócia, rumando a Londres, sem ter a mínima pista de onde exatamente meu corpo está passando agora. Guardo essa sensação, penso sobre ela. Ao meu lado, minha irmã. Na outra fileira de poltronas, meu irmão. Olho pra eles: ela dorme, ele curiosamente estava me olhando naquele mesmo instante que eu o olhei, então eu aceno pra ele e, apesar da escuridão que domina também o interior do ônibus, posso ver que ele me acena de volta. Retorno minhas atenções para a janela. Uma luz se anuncia ao longe e logo o ônibus está passando por um vilarejo, são poucas casas, quase todas iguais, feitas de pedras e portas coloridas, às vezes algum carro na frente, mas quase sempre não. Poucas luzes acesas. Deve ser porque hoje é o primeiro dia de 2017. Penso que gostaria de conhecer as pessoas que moram ali, e não sei bem explicar porque, mas devo admitir que tenho certo fascínio inocente por pessoas que vivem em lugares nos quais eu gostaria de viver. Talvez seja porque, ao falar com elas, ao notar seus modos de sorrir ou de aparar a grama, eu consiga me transportar para aquele cenário e imaginar que, por alguma razão, eu não virei aquela pessoa, eu não sou dono daquela história, mas poderia. Me torno o outro por um instante fantástico, é isso me deixa mais próximo de mim. É intrigante pensar que nós todos poderíamos ter sido quaisquer outros. Lembro então da noite anterior, que foi a última do ano de 2016, nós três nos aprontando para o reveillon de Edimburgo. O plano era ir para a rua ver os fogos e depois a um clube de jazz onde tocaria uma banda que conhecemos na noite anterior, ou seja, no penúltimo dia do ano, e que nos chegou de maneira totalmente ocasional. No dia em os topamos pela primeira vez, o grupo se apresentava no bar em frente ao nosso hostel. Fomos lá sem muita expectativa, apenas para beber e esquentar os corpos do frio que apertava mais à noite, sem ter ideia de que o bar tinha música, e que haveria um show de uma banda que fazia exatamente o som que escolheríamos para ouvir num momento simbólico como a virada do ano. Encontrar essa banda, nos divertir com eles durante e depois do show e saber que eles tocariam na virada do ano, e que faziam questão de nos colocar como seus convidados da festa, tudo aquilo nos soou como magia, talvez porque não buscávamos nada, ou talvez porque, se instados fossemos a escolher, certamente pintaríamos uma cena exatamente à que se desenrolava à nossa frente: música, amigos, bebidas, tudo muito leve, tudo muito natural, tudo muito excitante também. Porque falamos muito sobre a expectativa que cercava esta viagem. Era a primeira vez que viajaríamos juntos, só os três irmãos, e ela se daria por lugares que nunca imaginamos estar um dia, como Londres, Berlim, Glasgow, Edimburgo. Era impossível que durante a preparação da viagem não criássemos, inocentemente, pequenas expectativas de situações ou sensações. Lembro de dizer um dia, acho que faltava um mês e pouco pra viagem começar: vai ser completamente diferente do que a gente imagina. Pois então, sob esse ângulo, a história da banda, de certa forma, subvertia esse mandamento, justamente porque era algo que tínhamos, cada um a seu modo, imaginado silenciosamente por meses e meses antes do início da viagem. No outro dia, no réveillon no clube de jazz, tomamos um dos maiores porres das nossas vidas, dançamos, fizemos amigos, voltamos pra casa cambaleantes mas bastante precisos na tarefa de cantar músicas dos Paralamas pelas ruas geladas de Edimburgo, sabendo que, aconteça o que acontecer neste e nos outros anos das nossas vidas, teremos para sempre conosco a sensação de que, naquela noite, não poderíamos ser mais felizes. É claro que omito a ressaca avassaladora que nos atingiu no dia seguinte, mas agora estamos aquecidos em poltronas confortáveis neste ônibus cujas rodas trafegam por onde mesmo? – sigo sem saber. Deve estar muito frio lá fora. Nada me parece mais bonito agora que o silêncio. O nada é tão bonito quanto o silêncio. Estou tentando criar frases de efeito. É um dos sinais de que o sono chegou.

pra ouvir: brasília é luisa

[Londres, cinco de janeiro de dois mil e dezessete]

você me disse que andou pela rua colorida e resolveu pegar o ônibus vermelho até o sorriso da moça de quem não guardou o nome mas sim o gosto do café que ela lhe preparou e que lhe preparou pra caminhar caminhar caminhar até chegar em bricklane onde você se sentou para ler nick drake para sentir nick drake para olhar e conversar com a garota das revistas e você disse que lá você sempre esteve e lá você sempre estará

pra ouvir: daisy

[Londres, oito de janeiro de dois mil e dezessete]

ontem, caminhando até a estação, com as mãos no bolso pra me proteger do frio mas ainda mais pra espantar a ansiedade de te encontrar, havia uma frase em inglês pichada numa placa de ferro jogada na rua. dizia: “i am your father. your mother. your brother, sister, cousin, friend. i am different… and exactly like you. i am your family”. horas depois você disse que não sabia nada da gente, e eu disse que não sabia nada de vocês também. somos diferentes, mas iguais. perdidos no meio da rua a caminho do cinema a chuva descia e a gente ria de sei lá o que. por sentir talvez que o filme fosse outro – fosse a gente ali no meio da rua do mundo no meio da chuva a girar, que maravilha, que maravilha. o abraço longo ensopado naquela rua escura de casas iguais. mas você tem que ir embora. why is the moon so bright, why are you so nice? te solto a mão a imaginar se te encontro outra vez pela vida. o dia tem que ir embora – de novo. e daqui a pouco vou eu também. tantas coisas pra fazer, pra ver, pra aprender. pego ônibus sem saber se estou indo certo. depois desço e escolho caminhar. tiro as mãos do bolso e ponho os fones. as canções são como amigos a dizer para nós coisas que só se alcança depois da quinta cerveja. “everything is gonna be undone”, primeiro cantam. depois “god bless us all, wherever we will be”. chego em casa, abraço os meus, brindo copos, fumo a madrugada, escrevo versos, fazemos uma canção entre irmãos. ela começa assim: “nada / além da estrada / faz enxergar”. fecho os olhos por um instante. e depois abro-os pra sempre.

pra ouvir: middle names

[Tanworth-In-Arden, onze de janeiro de dois mil e dezessete]

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[1] como se a sua vida fosse um longo trajeto a se atravessar somente para que ele chegasse ate lá. lia e não acreditava:  Nick Drake. a lápide. os olhos recebiam sensações inéditas que eram enviadas diretamente ao coração, que não sabia fazer nada melhor do que explodir e se espalhar pelo céu que se vestia de um azul tão raro quanto raro era ter chegado ali. acho que o vento soprou bruscamente duas vezes e trocou as folhas de lugar. as folhas daquele lugar. a lápide. o mais próximo possível de Nick Drake. eu finalmente vim te ver, ele pensou, e agora gostaria de me demorar. então encostou-se na longa raiz da árvore, puxou papel e lápis e escreveu palavras das quais não se recorda de ter visto previamente em pensamento. [2] como você está, a irmã perguntou, logo depois que eles deixaram o cemitério e já estavam sentados nas largas cadeiras do único pub daquele vilarejo inglês cravado no meio do nada. talvez ela estivesse preocupada que o encontro com Nick Drake lhe recuperasse memórias tristes. o outro irmão pôs a mão no copo cheio de cerveja, mas não chegou a levanta-lo: também o queria saber. e o que se ouviu de resposta foram exatamente meia dúzia de palavras: eu nunca me senti tão feliz. [3] you can take a road that takes you to the stars now, i can take a road that’ll see me through. i can take a road that’ll see me through. i can take a road that’ll see me through.

pra ouvir: road

Estrada galhardia

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A mãe do outro lado da linha: você não vem, né? Ele com um ombro segurava o celular de onde saía aquela pergunta incômoda, o outro ombro estava liberado para ajudar nos movimentos que a mão faria para alcançar o pote de café na mesa, o destravar e com a colher colocar, finalmente, o pó no coador. Á agua fervia no fogão ao lado. Ele responde: não sei.

Abre os olhos na cama. Ressaca. Puxa o celular: sábado, duas horas da tarde. Tô fudido, ele fala, com a voz ainda ganhando corpo, a voz está acordando também. Enrola na cama mais dez minutos: fica olhando para a capa do livro que tentou ler na noite anterior, mesmo bêbado; sente que algo o está incomodando e demora longos segundos para perceber: dormiu de camisa. Tira a camisa fora, vê-a aterrissar delicadamente sob a mala aberta de uma viagem que acabou na semana passada, mas a mala aberta denuncia que talvez ainda não, talvez a viagem ainda esteja acontecendo. Levanta. Faz tudo correndo: banho, café e a montagem de uma pequena mochila. Vai passar um dia lá, ou menos. Chega, dorme, vai embora, ele memoriza enquanto decide se leva uma ou duas camisetas. Duas. Pede um táxi. O motorista quer saber qual é o horário do ônibus que ele vai pegar. É às quatro. O senhor de cabelos brancos e perfume antigo respira fundo: é, acho que não vai dar. Chega na rodoviária faltando 15 para as 4. A maquininha de cartão do taxista emperra, e ali se escorrem preciosos 3 minutos. Sobe a escada rolante de maneira irrepreensível: rápido nos passos, preciso nos desvios de quem atrapalhava o caminho, certeiro ao sair para a esquerda rumo ao guichê. O guichê está abarrotado de gente. Parece uma espécie de ensaio para os dias de pré-Natal, quando aí sim se dá o verdadeiro espetáculo chamado Rodoviária Abarrotada. As filas tem pelo menos 5 pessoas em cada. Percebe uma fila menor, só com duas. Sente-se sortudo. Mas é um senhor bastante idoso, o primeirão. Leva-se dias para ele tirar a carteira do bolso, meses para achar o cartão e anos para lembrar a senha. Faltam 7 minutos para as 4. Tenta ver com a outra pessoa, o segundão, sobre a possibilidade de passar-lhe à frente já que seu ônibus sairá – olha no relógio gigantesco da rodoviária que paira sobre eles – em 6 minutos. O segundão não topa, diz que vai ser rápido o dele, quer ver?, e então demora 2 minutos. Quando finalmente chega a sua vez, a compra é feita de maneira ágil, embora o atendente chamado Barbosa, com quem ele já teve um entrevero no passado

[mas isso o Barbosa não deve se lembrar (aliás, podemos pegar um atalho aqui? qual é o limite de fisionomias que um atendente de rodoviária é capaz de guardar trabalhando 6 dias por semana durante 8 horas em 10 anos?)]

embora o atendente chamado Barbosa picote a passagem e grampeie papeis inúteis com a mesma pressa com a qual assistimos TV no dia primeiro de janeiro. Ele não aguenta e pede educadamente que o atendente se agilize porque – olha novamente o relógio da rodoviária – faltam 2 minutos para o ônibus sair. Barbosa então o fita pela primeira vez. Está assustado. Diz: a regra é não vender passagem quando estiver faltando 5 minutos. Eu me distraí. Ele não está acreditando no que está ouvindo, não está acreditando que foi pegar justamente o guichê do Barbosa, esse generalzinho rodoviário, esse leão de chácara do Tietê, esse orientador de mestrado do Bolsonaro. Mas o Barbosa com sorriso no rosto lhe passa o tíquete pelo vidro: eu ainda estou distraído, então, corre. Chega no ônibus faltando um minuto para as 4.

No domingo, a avó o abraça com força. Ele também a ela. Ele abraça mais, até. Não a quer soltar. Sente seu cheiro, aperta com vontade suas costas, percebe sua pele. Acha que ela está cansada do abraço, então devagarzinho ensaia sair, mas ela não sai, ela quer ficar ali também, então ele permanece. Ao lado, o fogão, e dele sai um cheiro poderoso de arroz, feijão e carne, que o leva para tão longe na memória que nem sabe aonde caiu, talvez tenha caído ali entre o período que começou a jogar futebol e o período que começou a sofrer com piadas na sala de aula. Justamente naquela época a avó o acolheu em sua casa, e foi quando ele aprendeu a amar a avó para além do amor padrão dedicado aos pais dos nossos pais, esses senhorzinhos bonzinhos que às vezes dão presentes legais ou aliviam nossa barra quando o boletim vira assunto do almoço de domingo. Pela avó, não sentia isso, era um amor direto sem o intermediário do parentesco. Logo a memória vai embora, o abraço se desfaz e o afilhado aparece no final da cozinha. Está agachado atrás da cadeira, escondendo-se dele, o padrinho. Uma das maravilhas de se ter 6 anos de idade é poder esconder-se do mundo com extrema facilidade. O assento da cadeira atrás da qual o afilhado se esconde está ocupada pelo seu próprio Padrinho, um sujeito magro, alto e sorridente, prestes a completar seus 60 anos. Ele cumprimenta o Padrinho antes de buscar o afilhado atrás da cadeira. O Padrinho levanta-se, abraça-o, nenhum dos dois dizem nada. Ele então consegue soltar uma palavra: saudade. O Padrinho solta uma palavra também: eu. Não termina a frase.

Quando desce do ônibus, 6 horas depois de ter o desprazer de rever o atendente Barbosa, ele se deixa olhar a cidade. Aquela paisagem. Quantas vezes ele já perdeu o olhar naquelas ruas e naquele bairro que circundam a rodoviária? Às vezes esperando alguém ir busca-lo, como hoje, ou às vezes chegando cedo demais para pegar o ônibus. Aquela paisagem sempre ali, com seu gosto de despedida, seu cheiro de tchau, o bairro deveria se chamar Adeus ou algo assim, porque é claro que todo mundo que passa pela rodoviária reconhece aquelas ruas e aquele bairro como pertencentes às suas próprias histórias de ir e vir. Fica olhando a paisagem e não sente nada. Faz exatos 6 meses que ele pisou ali pela última vez. Nunca havia ficado tanto tempo longe de sua própria terra e, no entanto, chegar não lhe esquenta a alma. Não sente amor, nem nostalgia, nem desprezo, nem medo. Nada. Fica feliz. Era isso que esperava sentir, talvez pela primeira vez na vida, ele, sempre envolto com romantismos, só esperava sentir isso: nada. Quando o Tibé chega pra levá-lo pra casa, eles se abraçam e o Tibé lhe diz, ainda dentro do abraço: você não ia viajar sem antes ver a gente, né? Tá maluco?

A mãe quer o abraçar quando ele adentra a casa, mas o cachorro está latindo e é preciso segurá-lo porque o portão da garagem está aberto pro Tibé parar o carro. A mãe está em posição semicorcunda para segurar o cachorro e ao mesmo tempo abraçar o filho; o filho vê a mãe naquela posição e resolve acompanhá-la, entortando-se à altura estabelecida por ela, de modo que ambos se abraçam enquanto seguram o cachorro enquanto miram a garagem. Lá dentro, a mãe e o Tibé prepararam vinho, queijos, um peixe com mostarda que o filho experimenta e gosta muito, eles conversam a noite toda sobre tantos assuntos que horas depois estão esgotados como maratonistas de pentatlo.

Na padaria com a prima, a chuva forte caindo lá fora, ele a vê pedir 6 pães e não sabe quantos pães de queijo, que tinham acabado de sair, as bolotas sustentavam aquele aspecto amarelo solar, mas com pequenas áreas alaranjadas, que é onde se deu uma queimadinha inocente, e deliciosa, e isso lhe pareceu das coisas mais perfeitas e formosas que seus olhos enxergaram nos últimos tempos. Outra constatação silenciosa foi a de que é completamente alucinado pela fala doce e calma da atendente enquanto ela seleciona os pães. Não lhe interessa o rosto da moça, nem o vê; apenas a escuta dizer “cê quer e’s mais tostadim ou mais branquim?” e isso é tudo. Pensa em comentar com a prima, mas a energia da padaria acaba, fica tudo escuro e os dois, então, começam a fazer piadas familiares a partir da chuva, brincadeiras que ninguém veria um grão de areia de graça, mas os dois riem com a força de quando fumavam maconha de madrugada na casa da vó.

O afilhado sai de trás da cadeira e imediatamente quer brincar. A primeira brincadeira que eles empreendem é: o padrinho quer ver os dentes do afilhado, que estão naquela fase cai/nasce/abre/fecha buracos, mas o afilhado não quer mostrar, menos por vergonha do que por perceber ali um tema que pode gerar uma brincadeira, que consistirá em o afilhado não abrir a boca pra nada e o padrinho jogá-lo no sofá e fazer-lhe cosquinhas até que ele não consiga mais segurar a mão na boca e exploda numa risada, revelando-lhe os dentes.

Ele quer saber como a avó está: vó, e a senhora, como está, ele pergunta enquanto o almoço ainda está na parte da salada, e ela responde que vai levando, né meu filho, graças a Deus não posso reclamar de nada, e olha, vou te falar, a melhor coisa do mundo é a gente trabalhar, ter o que fazer, viu? Ele concorda com a cabeça, a cabeça que começa a pensar coisas como: ela tem 80 anos, e pra ele a avó continua exatamente igual a quando ela o recebeu na sua casa, há, o que?… 25 anos atrás? A cabeça está pensando: como o tempo de duas décadas e meia pode ter afetado em nada a beleza, a força e o espírito dela? Ele se serve de salada mais uma vez enquanto se alivia por estar ali com ela e não em qualquer outro lugar do mundo, e lembra do Tibé no carro: você ia embora sem ver a gente? Tá maluco?

A avó que um certo dia lhe contou que estava em Paris, isso não faz nem 3 ou 4 anos, ou seja, ela devia ter 75 ou 76, e ela fazia um desses passeios programados e agendados e ensaiados e quase sempre bastante tediosos, e num determinado instante não se aguentou, desceu e falou: quer saber? Vou andar. Conta que andou reto, sem rumo, sem fim, desse aonde desse, às favas com essa coisa de conhecer uma cidade como se estivesse no círculo militar, e foi então que conheceu verdadeira e profundamente Paris, que conversou com pessoas, e a ela se revelaram ruas, cafés e paisagens pra onde seus pés nunca saberão voltar e de quem seus sonhos nunca quererão se separar.

Chegando em casa, tarde da noite de domingo, ele atravessa a rua com calma porque é o único ser humano circulando por aquele perímetro no momento. Nos fones, uma música começa com a contagem das baquetas da bateria, duas vezes: tá, tá, e então um violão dá três notas, e na quarta entra todo mundo: guitarra, baixo, teclado e o violão segue o solo, agora acompanhado. Ele vai ouvindo esses detalhes e é tomado por um susto: ele gosta muito daquela música, mas não se lembra de nada. De quem é mesmo? Ele sabe que daqui a pouco vai entrar o teclado (entra o teclado). Ele sabe que normalmente a voz entraria agora mas o arranjo subverte essa expectativa (ninguém entra cantando. Pensa em tirar o celular do bolso e matar a curiosidade, mas sente um prazer inédito em estar às cegas, andando na rua escura escutando a canção misteriosa, embora ele saiba que quando entrar a voz ele vai matar a charada. A voz chega:

Mornington Crescent / I think of you / rain in the southeast / men feeling blue

Ele lembra de tudo: sabe a longa letra de cor. Imita o caminhar do baixo, acerta os momentos que sola a guitarra. A música lhe traz lembranças longínquas, de quando saiu de Franca e mudou-se para São Paulo, as memórias vão surgindo e se sobrepondo como quando se abre várias pastas no computador de uma só vez.

Pela janela do ônibus, ele vê tantas pedaços de vida: árvores, carros, o céu sem fim, o risco amarelo que corta a estrada, a chuva que se forma mais à frente, um pássaro negro flanando em linha torta, ora pegando gás e voando em perfeita linha reta, ora parecendo perdido e voltando para onde estava; ele pensa: nessa imensidão, nesse meio do nada que estamos eu e o pássaro, ele não pode parar, não há pontos de apoio próximos, só lhe resta voar e enfrentar o que vier até que sua hora de descansar chegue; e nesse momento, de dentro do ônibus, com um livro na mão e os fones lhe alimentando com música, nesse momento ele sente que está muito perto de se libertar da dor que o acompanha já há algum tempo; o coração está do tamanho daquele céu e lhe comunica que o fim se aproxima e quando ele chegar será na verdade um começo. Ele anota no livro: mandar o ego pra longe, lembrar do pássaro.

O Padrinho quase não fala durante o almoço, mas seus olhos o perseguem a maior parte do tempo. São olhos atentos e generosos. Querem dizer algo. O infortúnio que acometeu o Padrinho, cujo nome racional é autoexplicativo – demência precoce –é, seguramente, o acontecimento mais pesado que já abateu aquela família. De homem ágil, trilíngue e obcecado por uma vida independente, o Padrinho aos poucos foi ficando lento, com dificuldade de falar e dependente de todos os seus mais próximos. Menos do Afilhado. Ao menos naquela mesa, o Afilhado é o que menos lhe prestou ajuda nesses tempo. Os 6 meses sem aparecer são apenas parte de uma incapacidade de fazer algo em relação a esse caso, a essa figura que tanto lhe fez bem anos a fio. Essa dor lhe abate logo quando a salada sai de cena e todos começam a se servir de arroz, feijão e carne. O Padrinho se serve sozinho, não sem alguma confusão com os talheres, e volta à mesa. Escuta a conversa. Estão falando de Nova York. Os seus olhos brilham quando ele diz: é uma cidade muito bonita, não, Padrinho? O Padrinho sorri mais. E fala: é. O almoço acaba, chega o café, o Padrinho segue ali sem falar mas o olhar está firme. O Afilhado pensa que gostaria de ter 6 meses com o Padrinho, testar suas memórias mostrando-lhe fotos do passado, criando sistemas de jogos para ferver sua mente, usar a música como forma de resgate do passado, contar histórias para quem sabe reativar-lhe o desejo de contar também. Mas um segundo depois admite que é tudo uma grande besteira – não está a diminuir a efetividade destas ações, elas podem mesmo funcionar – mas a grande besteira é achar que isso tem pé na realidade. Olha pra avó, lembra do primo que é maior companheiro do Padrinho nesse seu novo mundo, e sente-se como a filha do empresário que sobe a favela trazendo respostas pra dores que nunca sentiu. O Padrinho lhe abraça na hora de se despedirem. É um abraço longo. O Padrinho diz: qualquer hora eu tô lá.

A mãe está feliz de vê-lo. No pouco tempo que estão juntos, eles conversam. Os assuntos se misturam, se esbarram, se interrompem, se retomam, faltam poucas horas pro filho ir embora e ele começa a pensar que nunca deveria ir.

No ônibus de volta, encontra uma amiga antiga, uma amiga com quem não tem contato há coisa de sete ou oito anos, mas por quem nutre um carinho também grande, dessas coisas que não se explica, porque o tempo tende a apagar alguns laços, mas talvez ela tenha sido tão boa amiga naqueles-anos-que-agora-parecem-séculos-atrás, que a ele é claro o reconhecimento de que a amiga é um ponto de luz dentre tantos pontos que nos passam. A amiga conta da sua vida, pergunta da dele, ela conta da vida dos outros que os cercavam, falando mais das meninas e do namorado, por quem ele também guarda um carinho acima do que o tempo de convivência poderia sugerir, e ele faz o mesmo, falando mais dos meninos. Ela diz que esses dias ouviu uma música dos Paralamas e sua memória resgatou um monte de imagens e histórias daquela época; ele fica feliz de ouvi-la dizer isso, mas não conta a ela sobre sua crença no poder da música em nos deslocar a regiões esquecidas da nossa existência. Eles combinam de tentar se ver qualquer dia, ele brinca que o encontro vai mudar a vida de um dos três, algo verdadeiramente transformador se dará depois desse dia, e eles vão dizer “nossa, ainda bem que a gente se esbarrou no ônibus pra Franca aquele dia!”, eles riem e ela volta pra sua poltrona, ele pra dele.

A rodoviária está quieta. É quase meia noite de domingo pra segunda. A caminho do metrô, aqueles sujeitos que ficam anunciando táxi. Eles só dizem isso: táxi, táxi, táxi. Ele nunca entendeu a estratégia comercial de se oferecer táxi na fila do metrô, e somaria esse dia como mais um de discordância dessa história, mas não é que logo em seguida ele escuta o sujeito gritar táxi pela enésima vez e uma mulher responder quanto fica pra ir até a Penha?, e ele então se dá conta de ter finalmente testemunhado um milagre, e fica pensando se isso não pode se adequar, por exemplo, a uma análise mais filosófica sobre a nossa existência, por exemplo, essa coisa da gente achar que sabe tudo mas não sabe é nada, porque, veja, qualquer coisa é possível: até alguém pedir táxi na fila do metrô, e na fila de hoje um pedinte está à beira do guichê clamando moedas para todos que estão a comprar o bilhete. Quando alguém lhe nega o troco, ele junta as mãos e abaixa a cabeça, silencioso, como um japonês agradecido. Mas quando o sujeito lhe despeja moedas na mão suja e cascuda que ele mantém estendida a maior parte do tempo, ele levanta os braços sobre a cabeça do cidadão e, tal qual um padre, profere: Tenha uma boa vida, meu filho.

*

imagem: Himmel über Berlin / 1987 / Wim Wenders

rabiscos imediatos que viraram música

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antes do mar

só vi pousar

tristeza dura

em mim

 

ao mergulhar

eu pude achar

certeza: a cura

é abraçar o sim

 

não vou tirar você de mim

não vou tirar você de mim

 

vou pra estação

vejo chegar

destinos tantos que não tem mais fim

 

o meu olhar

o meu olhar

o meu olhar vai ser o meu lugar

 

não vou tirar você de mim

não vou tirar você de mim

 

deixa estar:

o espanto

é o sol

*

ilustração de chloé poizat

Acabou a energia no meio do corte de cabelo, no meio do corte de cabelo acabou a energia

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– Como é o corte do seu cabelo?

– Não tem regra. Normalmente vai na tesoura.

Ele planta os olhos em mim. Estou vendo pelo reflexo do espelho. Dá uma volta quase 360 graus com o olhar fixo no meu cabelo.

– Seu cabelo tá muito grande. Melhor a maquininha.

– Tá bom.

Começa o som: aquele ziiiiii da maquininha passeando pelas laterais da minha cabeça. O movimento lembra as corridas curtas que os treinos de basquete me ensinaram, e que a gente chamava de “piques”. Ziiii e para.  Ziiii e para. Vai pra outra lateral. Vai pra outra região do cabelo. Ziii e para. E não volta mais. Acabou a energia no salão. Ele me olha pelo espelho:

– Ih, fudeu.

Olhamos os dois pra porta de vidro. Cai uma chuva forte lá fora. Pessoas correm desesperadas em busca de algum abrigo. Uma mulher não consegue segurar o guarda-chuva e vê ele voar pelas ruas, atravessar um portão e parar dentro de um prédio. A ventania dá ares de fim de mundo pra aquele momento. Eu, por minha vez, estou paralisado na cadeira, sem coragem de olhar pro espelho. O que será que aconteceu com meu cabelo nesse corte interrompido? Me recordo imediatamente das brincadeiras que gostava de fazer no cabeleireiro quando era criança: mãe, olha meu cabelo metade cortado, metade não. Depois, mais velho: deixa eu tirar uma foto do meu bigode metade cortado, metade não.

Olho pro espelho. Meu cabelo está grande em cima e curto embaixo. É o tipo de corte que eu não faria em hipótese alguma. Fiquei com cara de moleque desleixado, camiseta punk, tênis rasgado. Meio jogador de futebol safra 2013. Acho graça. E penso: pelo menos não estou metade alguma coisa, metade não.

– Fica frio, você deu sorte. Foi o tempo certinho de eu passar a máquina do jeito que tinha que ser.

Marcos tá em pé em frente a porta de vidro, olhando o mundo lá fora desabar em água. Deve ter percebido minha cara de desespero.

– Talvez a energia volte, mas acho difícil. Vamos esperar.

Fico ali sentado na cadeira própria de cortar cabelo, dividindo meu tempo entre uma conversa sobre algum assunto e umas pequenas olhadas no espelho, só pra garantir que, de fato, está tudo bem e não estou parecendo o Robert Smith do The Cure. Marcos senta na cadeira ao lado, e é engraçado vê-lo no espaço destinado aos clientes, não aos cabeleireiros. No papo, descubro que ele fez jornalismo (assim como eu), ficou logo desencantado pelas aulas, que chamou de “burocráticas” (assim como eu) e largou o curso quando alcançou o segundo ano. Nisso, fomos diferentes: eu não tive aquela coragem. Me formei. Talvez tenha faltado a ele o que essencialmente me segurou naquela faculdade: os amigos, o medo da desaprovação familiar e um professor chamado André Santoro. Estou pensando nisso quando ele diz:

– Sabe o que é? Eu só queria escrever. E a faculdade não deixava.

Minha mente então se prepara para formular diversas frases de ânimo – “mas cara, não deixe a faculdade de jornalismo matar a sua vontade de escrever!”, e coisas assim -, mas naquele instante alguém começa a bater na porta de vidro. Viramos o rosto e lá está uma mulher toda ensopada, falando alguma coisa que não conseguimos escutar. Marcos vai até lá e abre a porta.

– Posso ficar aqui com vocês? Tô com medo de raio.

O Marcos deixa a mulher entrar, ajuda-a com a bolsa, oferece uma cadeira (de barbearia) pra ela se sentar também. Agora somos três unidos pela falta de energia. A mulher tem estatura mediana, rosto cavalar e um nariz longo. Seus cabelos negros estão muito molhados, mas ela não parece incomodada com a água que habita temporariamente suas vestes e parte do seu corpo. Fica mexendo no celular até perceber que está sem sinal. É quando eu percebo que também estou, e o Marcos também. Começamos a conversar. Ela conta que está ali para visitar o filho, que vive no prédio em frente. Ela tentou entrar lá, mas o porteiro disse que não havia como abrir o portão porque estava sem energia, então ela se viu no meio da rua sem ter pra onde ir e não pensou duas vezes quando viu que na barbearia tinha gente. E então pergunta pro Marcos:

– Aqui vende cerveja?

Ele vai até geladeira, tira uma Heineken e entrega na mão dela. Ela, por sua vez, abre a bolsa, tira uma nota de 5 reais molhada e duas moedas de 50 centavos e entrega a ele. Depois, vira pro meu lado e ordena:

– Abre pra mim.

Eu giro a tampinha, guardo-a no bolso, devolvo a cerveja. Ela vai até a porta de vidro e avista o filho andando na frente do prédio, decerto procurando-a. “Hora de ir embora”, ela nos avisa, e sai pra rua. Com a porta aberta, dá pra ouvir o diálogo que se deu lá fora:

– Mãe, pelo amor de Deus! Onde você tava? O porteiro disse que você sumiu!

– Sumi nada, menino! Fui só pegar uma cervejinha ali na esquina. Toma um gole e se acalma!

Lá dentro, eu desisto de esperar a energia voltar. Aceito que vou viver um dia com um cabelo que não escolhi pra mim. Me despeço do Marcos e combino de amanhã passar lá. Saio na rua, e a chuva já deu trégua. Prédios, casas, padarias, restaurantes, a portinha que vende doces mas que na verdade é ponto de jogo do bicho: na Vila Madalena tá tudo sem energia. Minha casa fica na rua debaixo – não adianta ir pra lá. Vejo que a padaria está acesa graças a um gerador. Estou com fome. Logo na entrada, uma funcionária alerta, como uma mensageira do fim do mundo: estamos sem sistema de cartões, só dinheiro! Abro minha carteira: 4 reais e 25 centavos. Dou meia volta. Não tenho nada pra fazer e não há nada que eu possa fazer sobre isso. O que me resta é caminhar e fotografar mentalmente o que acontece quando ficamos sem energia elétrica.

*

O semáforo desligado parece deixar os motoristas atordoados, de modo que os carros tentam desviar uns dos outros mas acabam travando uns aos outros, uma coisa meio Chaplin, meio Huxley.

*

O mercadinho comandado pelos coreanos não tem gerador. E é uma bagunça só. Uma garota entra correndo no estabelecimento, que naquele momento está às moscas. O coreano vai calmamente atrás dela, e diz:

– Não demora muito pra escolher não, porque vai escurecer logo, logo. E no escuro nem eu sei onde estão as coisas.

*

A Rua dos Pinheiros está lotada de carros parados. Duas amigas se animam a andar entre eles. Uma comenta com a outra:

– Eu até gosto do caos, sabia? Olha que beleza poder atravessar a rua sem medo!

A outra até parece disposta a responder, mas acaba de enfiar os pés numa poça d’água.

*

Alguém me cutuca. É um garoto, 17 anos, boné largo e fone grande. Está suado, e sua fala é apressada.

– Meu primeiro dia de trabalho hoje, cara, e meu celular tá sem sinal por causa dessa chuva. Eu preciso ir num bar que chama São Bento, o chefe falou pra eu chegar às 18h30, são 18h25 e eu não sei onde ele fica.

Eu explico que ele está perto. “Pega a direita, pega a esquerda e pronto”. Ele não se contém de alívio e sai correndo, como se seu corpo tivesse sido subitamente ligado na tomada. Só se toca que nem me agradeceu quando já está do outro lado da calçada. É de lá que ele grita:

– Salvou, hein?

*

É só andar pelas ruas para perceber que a falta de sinal da minha operadora (não sei como está o sinal das outras) fez com que o número de zumbis digitando enquanto caminham/comem/conversam – eu incluso – diminuiu drasticamente. E para confirmar que, em terra de blecaute, quem te gerador é rei.

*

Preciso trabalhar, o que significa que preciso de energia e internet (e um pão de queijo, se der). Pego um táxi ao modo antigo: mexendo a mão e dando um grito (interessante pensar que Uber não funciona sem energia). O motorista pergunta: vai pra onde? E eu me pergunto: vou pra onde? Sei lá. Onde tem energia e internet com certeza? Num shopping? Penso naquele da Pompeia. A Pompeia me parece o lugar ideal: não está tão longe a ponto de demorar pra chegar, não está tão perto a ponto de estar também sem energia. Rumamos pra lá. No caminho, começo a me arrepender da decisão: está tudo apagado na avenida Pompeia, tudo apagado na rua Diana e finalmente tudo apagado na rua Palestra Itália, onde fica o shopping. Tudo não – o shopping está acesíssimo. Desço do táxi e procuro um segurança.

– O shopping tá funcionando normalmente?

– Tá, sim senhor. Lojas, restaurantes, caixas eletrônicos. Tudo.

Entro. A luz chega a me incomodar. As lojas estão cheias, as pessoas carregam sacolas e transações de débito e crédito flutuam pelo céu virtual. Me sinto como se estivesse no final de um filme dirigido por João Dória.

 

Domingo no parque

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Não sair de casa é, às vezes, cair na estrada. Trata-se de quando pegamos a rodovia da solidão, do nada pra fazer, da ausência de expectativa sobre o minuto seguinte e, enfim, partimos pra dentro. É interessante notar como eternamente seremos obrigados a nos equilibrar entre contato e recolhimento. Entre som e silêncio. Entre escutar o mundo ou escutar a gente mesmo.

Sair para jantar com meu pai, como fazemos religiosamente uma vez por semana, às vezes nas quintas, às vezes aos domingos – quase sempre aos domingos por escolha dele – é regularmente um exercício logístico que me exige muita paciência. Aos 58 anos, meu pai não conhece outra forma de locomoção que não seja a realizada pelo carro – e exclusivamente pelo carro dele. Ele não pega táxi, não usa o metrô e é possível dizer que nunca subiu em um ônibus. Por isso, ao sairmos pra jantar, o primeiro problema é achar estacionamento, o segundo é se ele pode levar a chave ou não e só, depois, agora sim, estamos prontos para discutir o que vamos comer. E ele nunca deixa o carro na rua. Não foram poucas as vezes em que havia vaga na frente do restaurante, inclusive com mesas próximas à janelas – o que nos daria a possibilidade de vigiar o sagrado transporte enquanto comíamos – e, mesmo assim, ele optou por parar num estacionamento a 5 quarteirões, que lhe cobrava, ao final, muitos reais por aquela hora e meia.

Ouço muito uma rádio francesa chamada FIP. Há alguns bons anos ela é a única rádio que escuto diariamente. Hoje, depois de deixá-la ligada por horas seguidas, reparo na quantidade de canções da nova música brasileira que foram transmitidas por ali. Nenhuma rádio toca tanta música moderna do nosso país do que essa rádio francesa de 45 anos de idade.

Estou sentado na varanda do meu quarto, um quadrado de um metro por um metro e meio, no qual cabem apenas meus seis vasinhos, uma cadeira, eu, meu livro e a garrafa de café. Fico ali a tarde toda, sem camisa, lendo ou apenas olhando para a rua, para a movimentação de pessoas, ou, às vezes, para o céu. E por alguns instantes sinto como se estivesse num jardim, num quintal do fundo de casa, ou nos momentos mais alucinados – oriundos, talvez, da mistura de café e sol fortes – acho que estou num sítio. E, no entanto, estou num quadrado de cimento com grades baixas que mal caberiam uma segunda pessoa. O ser humano se acostuma, eu penso, enquanto lembro dos episódios distópicos de Black Mirror que me causaram espécie noites antes.

Minha mãe me ligou ontem, parecia alegre de vinho, e falamos por longos minutos. O papo corria tão fluentemente que foi preciso algum esforço para desligar. Em algum momento, ela comentou: veja sua vó, tem 80 anos e recebe uma aposentadoria que nunca pagaria as contas. Imediatamente lembro do que li no jornal esses dias, que Temer Golpista e dois ministros haviam se aposentado por volta dos 50 anos de idade e hoje recebem, em média, coisa de 30 mil reais cada. Pensei então que seria interessante abrir uma comparação pura e simples sobre qualidade e quantidade de trabalho, uma coisa planilha de Excel mesmo: uma coluna teria “Michel Temer” e a outra “vó Lena”. O que será que Temer Golpista e seus ministros fizeram tão a mais que merecem pendurar as chuteiras mais cedo do que ela e ganhar, sei lá, 10 vezes mais? Depois penso que o critério não é esse, é claro, estou apenas e novamente alucinando acerca da realidade, certamente por conta da mistura de café e sol.

Tenho mais de 500 livros na minha biblioteca, uma conquista da qual me orgulho muito, porque comecei com essa maluquice muito cedo, ali pelos 12 anos. Junto à devoção pela obra dos Paralamas, talvez seja a única paixão que eu carregue com a mesma força desde aquela época. Hoje me dei conta de que comprei 11 livros nos últimos 30 dias. Me pergunto: por que sigo acumulando? Me respondo: por medo de ficar sozinho. Toda vez que um livro adentra a casa, minha mente entende que, num futuro de intensa solidão, como os de Black Mirror, eu não estarei só.

A pessoa mais legal que conheci nos últimos tempos é o porteiro daqui do prédio. Ele se chama Marinélvio. No começo eu achava que era Marinálvio. Até que vi alguém chamá-lo simplesmente de Mario, achei de uma prudência recheada de elegância, e adotei desde então. O que o faz a pessoa mais legal dos últimos tempos não é o fato de ele ser solícito, educado e gentil. E não é o fato de ele topar burlar umas regrinhas do prédio em prol do bom senso (o que faz lembrar alguns inspetores da período escolar, que surpreendiam quando não seguiam a cartilha muitas vezes estúpida pregada pela direção). Não é nada disso. É, sim, o fato de que quando falo com ele, sinto que sou seu amigo. Espero que ele sinta o mesmo por mim.

“Textos longos” – acho essa expressão muito estranha – não atraem mais ninguém. Textos não postados diretamente no Facebook tem não sei quantos porcento a menos de leitores do que textos publicados em sites. “Já não queremos muito ler, e vocês ainda vem com essa de ter que clicar num link e sair do Facebook?” Ainda bem que Black Mirror acabou – ao menos na ficção. Na outrora protagonista vida real, a série continua.

reportações de uma mudança [2]

152999sus·pen·são
substantivo feminino

1. Ato ou efeito de suspender.

2. Estado de algo que está suspenso.

3. Enleio, êxtase.

4. Incerteza, dúvida.

5. Hesitação; pausa.

Hoje foi o dia das caixas de papelão. Normalmente, esse dia chega depois dos dias “acho que encontrei um novo lar”, do dia “nossa, que tanto de papelada eles pedem”, do dia “não vou assinar esse contrato nem fudendo, filhas da putas, pensam que eu estou desesperado?” e do dia “assinei o contrato, tava ficando desesperado”.

Fui buscar as caixas de papelão no supermercado e agora elas estão vazias e espalhadas pelo meu quarto. Aguardando. Eu também tô em suspensão, no sentido de nem lá, nem cá. Já não arrumo meu quarto há dias porque penso que não faz sentido, já que em alguns dias ele não será mais meu quarto, só um cômodo de um apartamento vazio. Ao mesmo tempo, o novo quarto está lá, também me aguardando, e embora eu o considere meu novo quarto, ele não passa um cômodo num apartamento vazio. A situação é complexa, como podem ver, e pede atitudes desprovidas de sentimento, como é o ato de encher caixas de papelão de – e isso é muito importante – objetos indiscutíveis. Objetos indiscutíveis são aqueles que não solicitam reflexão sobre se devem ou não seguir para o novo lar, o que, na prática, significa que você não vai ficar – ao menos não nesse dia – abrindo caixas do passado, dando de cara com “cartas e fotografias, gente que foi embora”, como canta Herbert Vianna em “Tendo a Lua”, cuja letra – se me permitem um momento Enrique Vilas-Matas – foi feita a partir de uma carta de uma ex-namorada que Herbert achou num dia de mudança.

Mas falávamos das caixas de papelão. Hoje é o dia delas. Peguei uma agora na mão, apalpei seu fundo com força: aguenta peso. Olhei para o quarto: livros, vinis, cartas e fotografias me observam na suspeita de que puxarão a fila. Escolhos os vinis por conta do formato da caixa, que me parece quadrada o suficiente para os bolachões. Acerto em cheio: o primeiro vinil passa suavemente e se encaixa com tranquilidade naquela que será seu transporte temporário até a nova casa. Vou colocando um, dois, três discos, quando me dou conta de que seria prudente e inteligente verificar antes se, entre eles, não há um ou outro que eu não queira levar comigo na nova vida, seja por estar desgastado demais, ou desprovido de disco (aquele caso em que você tem só a capa de um vinil). Já dou-lhes cabo agora mesmo! Começo a análise, até que paro em um:

The Wake – Here Comes Everybody

Lembro perfeitamente dos motivos pelos quais o comprei em 2009: a capa e o preço. A capa tinha umas engrenagens em clima psicodélico, desenhadas sob um fundo bege, limitadas num recorte à esquerda, deixando branca a maior parte da área. E custava 1 real em algum sebo do centro. Levei, mas nunca ouvi. Colei na parede em dois quartinhos apertados que morei, mas nunca ouvi. Agora, eu estou prestes a decidir seu destino, e entendi que era preciso finalmente ouvi-lo. Deixo tudo o que estou fazendo e coloco-o para tocar. O disco é maravilhoso. Onde eu estava com a cabeça esse anos todos que não ouvi esse pós-punk cheio de reverbs, melancolia e espasmos de alegria? Agora são 3 horas da manhã e eu estou dançando a sua música em meio a essa bagunça hostil do quarto. E não há mais dúvidas se devemos seguir juntos.