a vida gesticula ou para; a câmera continua

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– “o que você fez durante esses dias?

– envelheci”.

(Raymond Queneau em “Zazie no Metrô”)

Amanhã é quarta-feira de cinzas e as ruas da cidade estão ótimas pra caminhar. Há um mundo de pessoas vestindo roupas coloridas, engraçadas, atrevidas. Andam em bandos a dançar, cantar e, às vezes, a gritar coisas que ninguém entende. E está tudo maravilhosamente bem. Entro na padaria e vejo um homem dos seus 50 anos usando saia curta cor de rosa e uma blusa feminina colada. Ele é atendido pelo garçom de maneira protocolar, e isso é ótimo: quatro dias de festa e já estamos habituados ao mundo das fantasias. Me levanto para pagar a conta e me pergunto porque, no dia seguinte, voltaremos a ter medo do que é diferente.

(O carnaval propõe uma nova direção de arte para o filme que passa todo os dias em nossas vidas).

Ando até o CineSesc, onde está em cartaz a a mostra “Carnaval em 35mm”. Anteontem fui ver “Jacquot de Nantes” (de Agnés Varda, 1991), e ontem foi a vez de “Zazie no Metrô” (de Louis Malle, 1960). São histórias que se desenrolam a partir da perspectiva de crianças que se encantam e desencantam com a cidade, a arte e os adultos. Ao primeiro, inclusive, fui às cegas, o que considero sempre uma aventura. No nosso universo ultra conectado, estar em um lugar sem saber o que vai acontecer é um ato de alta transgressão. Sem saber nada eu também ia hoje assistir a “Um dia, um gato” (Vojtech Jasny, 1963). Mas, quando estava a menos de um quilômetro de lá, começou uma chuva forte. Ironicamente, nesse momento eu estava em frente a outro cinema, o Cine Belas Artes. Entrei ali para me abrigar, e vendo que a água não terminaria seu trabalho tão cedo, me dispus a assistir a qualquer filme que estivesse em cartaz. Mas – ironia final – nenhum título me interessou. Restou-me sentar ao balcão, pedir um café e abrir o ótimo livro que trazia comigo, “Também os Brancos Sabem Dançar”, do angolano Kalaf Epalanga. O cinema estava lotado e as pessoas falavam alto demais, então quase não escutei as histórias que se davam ao meu lado. Em verdade, captei apenas duas: a de uma senhora telefonando ao filho cancelando o jantar que teriam logo mais. “Como assim, mãe, você não vem por causa da chuva?”, suponho que tenha sido a reação do outro lado da linha. “E a mamãe algum dia soube dirigir na chuva, André?”. Na minha frente, estão duas garotas na casa dos 20 anos, muito apaixonadas, comendo pipoca e falando sem parar. Uma diz à outra: meus pais não acreditam em Deus, não acreditam em nada. Por isso eu sou assim, não fica brava.

Ter permanecido em São Paulo foi estranho e interessante ao mesmo tempo. Ficar sozinho em casa faz um bem para aqueles que gostam (e por isso precisam) estar consigo, e é este o meu caso – ao que agradeço, porque estarei em minha companhia para sempre, então é bom que essa parceria seja agradável; mas isso foi acontecer bem no Carnaval, então não é só que minha parceira está viajando, mas também meus amigos, meus companheiros de trabalho, todas as outras partes da minha vida foram pular ou se esconder do Carnaval. Demorei a me acostumar com o silêncio permanente e em fazer café para apenas um. Outra coisa: inéditos barulhos surgem a todo momento, seja lá em qual cômodo eu esteja. Desconfio que a casa faça isso para me pregar peças e se divertir um pouco, a casa também está entediada, ela também está com saudades da Ju.

Ir ao cinema é uma atividade que me interessa desde muito pequeno. Em Franca, cheguei a ver alguns filmes na única sala de rua da cidade. Um dia, ele não estava mais ali, e em seu lugar, brilhava uma igreja evangélica. Aí, na pré-pré-adolescência, o jeito era ir ao shopping – um espaço privado que a gente ingenuamente comprava como público. Todos os meus amigos com 9 ou 10 anos de idade ansiavam pelo dia em que os pais os sozinhos naquele espaço cheio de lojas e seguranças, a gastar 10 reais em McDonalds, sorvetes, jogos de fliperama e ainda guardar o que sobrava para voltar na próxima semana. Eu também ansiava por esse momento, mas com outros interesses. O primeiro acho que era comum a todos nós: ficar longe da vigilância dos pais. Não éramos mais crianças, mas por nada no mundo eles entendiam isso. Tínhamos nossas próprias ideias sobre a melhor forma de curtir uma tarde de terça-feira, mas quem disse que nos ouviam? Lição de casa, aula de inglês, às vezes castigos no quarto, esses eram os planos deles pra nós.

O segundo motivo eram as garotas – as garotas de outros bairros e outras escolas, cujos cabelos e roupas nada tinham a ver com as garotas da minha escola. Havia um ar de protesto naquelas meninas que tinham seu próprio estilo, falavam de qualquer assunto e não temiam conversar com os meninos de gel no cabelo e camiseta de marca, como éramos eu e meus amigos. Conhecê-las – e me apaixonar perdidamente por duas delas, tragicamente duas irmãs – está no topo da lista de pequenos acontecimentos revolucionários que vivenciei.  

A última razão para ir ao shopping era o cinema. Recordo vivamente de quando assisti pela primeira vez a “Mudança de Hábito”. Uma mulher que transforma a caretice geral de um convento com música? Saí de lá vingado, extasiado, e assim também estava meu primo, que propôs que voltássemos quantas vezes fosse possível. Era férias e tínhamos moedas, e assim assistimos ao filme mais cinco vezes naquela semana. Saíamos de lá e sabíamos reencenar cada cena, imitar a dança dos personagens e até falar dublado por um ou dois dias. Quando as aulas voltassem, bem que Whoopi Goldberg poderia aparecer na minha escola e nos salvar. E ela ainda tinha esse nome, Whoopi, que na época me parecia um feliz grito de vitória.

Essa é a minha primeira memória sobre o efeito do cinema no meu corpo e no meu pensamento. Muitas vezes mais senti isso, e ainda ontem foi assim. Pouco depois de descobrir a Whoopi, fui a São Paulo visitar meu pai. Ele sugeriu irmos ao cinema. Nós dois não tínhamos muita intimidade um com o outro naquela época. Eu era um pré-pré-adolescente em transformação diária, e nos víamos apenas uma vez por mês ou coisa assim. De modo que com ele fiquei à vontade para ativar o que eu nomeei “modo personagem”, o que significava, basicamente, passar a falar como se eu fosse um personagem de filme. Dava trabalho: era preciso ficar atento ao meu vocabulário, ao tom de voz, ao tipo de risada e manter o ar meio blasé-inteligente que meus heróis cinematográficos da época – não sei explicar a razão – tinham. Uma dormida no ponto e eu voltaria a ser o velho Eduardo, personagem secundário de filme nenhum. Tratava-se de uma missão de alta periculosidade, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Nessa noite, assistimos a um filme que ambos gostaram muito. É pena eu não recordar o nome ou sobre o que era. O que não esqueço é que, na saída da sessão, ainda com as luzes a doer nos olhos, perguntei a meu pai o que ele tinha achado da história. As palavras saiam da sua boca e tive de conter meu susto. Ele estava falando exatamente como o personagem principal.

***

foto: cena de “Jacquot de Nantes“, de Agnes Varda, 1991.

vou escrever todo dia para ver se consigo entender como viemos parar aqui

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Íamos fazer uma fogueira no ano novo, escrever em papéis tudo que não queríamos carregar conosco em 2019, e então queimar. Depois escrever em papéis tudo que queríamos fazer – e salvar, e se desse, pregar no espelho do banheiro. Mas não fizemos, acho que por preguiça ou porque ficar em volta do fogão ouvindo música e inventando cardápios estava muito divertido.

Na minha lista do que fazer, certamente estaria “escrever diariamente”. Acho que me imponho essa meta ano sim, ano não. Virei 2017 lendo “Os Diários de Emilio Renzi”, do argentino Ricardo Piglia, e me causou um grande impacto ver aquele conjunto de cartas que ele redigiu silenciosamente durante dez anos, ali, reunidos muitos anos depois. Vi o tempo em cápsulas. Uma vida contada em pequenos e simples fragmentos textuais – simples porque não é multiplataforma, não tem versão para Instagram Stories, não precisa de vídeos lacradores para captar a atenção.

E está tudo bem com o universo digital, mas estou falando de apreender a existência. Dar conta do pé ante pé do tempo. Que momento da vida moderna nos damos para pensar sobre o que estamos vivendo, se ao menor sinal de tédio – como no micro trajeto em um elevador – recorremos ao celular para nos entreter?

Sinto até uma quentura no peito ao pensar no livro do Piglia, uma quentura parente da que senti quando pisei num país estrangeiro pela primeira vez, ou todas as vezes que redescobri o amor.

Quase não fumo mais maconha porque criei uma relação muito amistosa com a realidade. Encontrar o budismo me faz meditar com boa frequência. Não tenho televisão e não perco mais tempo em situações inúteis, quando isso é possível. Não posso negar que percebo-me mais presente no aqui e agora do que a maioria das pessoas que me cercam. Mas, ainda assim, dia sim, dia não, acordo com a angústia de que estou perdendo a mão sobre os fatos.

Como é possível que eu não tenha a mínima ideia do que está acontecendo com a gente e com o mundo, se eu estava aqui o tempo todo?

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(Tenho uma mania: nos sábados sem trabalho, vou sozinho tomar café da manhã na padaria que frequentei durante a faculdade. Ela fica há exatos três quilômetros da minha atual casa, mas encaro essa distância pouco prática sem nunca titubear. Uma vez lá, peço a mesma coisa de sempre e leio os jornais que levei comigo. Depois levanto e caminho até o Cine Belas Artes (1,5 km), onde sento-me no balcão, peço um café e abro um livro. Já fiz isso dezenas de vezes. Nunca fico menos de duas horas, frequentemente passo das três, já cheguei à marca de cinco. O que me atrai são as conversas que escuto. O disfarce de garoto absorto no livro me ajuda a captar diálogos sem parecer enxerido – e voltar ao livro é sempre uma opção quando a história que surge ao meu lado é chata demais. Naquele balcão de granito com bancos sem encosto, sentam-se e levantam-se verdadeiros universos. Casais, figuras solitárias, turmas inteiras, parentes que não se veem, amigos de longa data, cinéfilos cativos, desconhecidos desconfiados, desconhecidos abertos à novas amizades, malandros, turistas – escuto a todos. Nos limites da cidade grande, é a forma mais eficiente que encontrei de me reconectar ao mundo. Todas as vezes saio de lá mais otimista com a humanidade. Tenho certeza que isso tem a ver com um ponto muito importante: ali eu não preciso falar).

Esse é um dos paradoxos que me levam a não escrever: cada palavra redigida aqui me faz sentir que estou falando. Olha como eu imagino essa cena agora: eu e você numa mesa de bar, você em profundo silêncio enquanto eu estou falando sem parar – sinto que estou falando sem parar quando escrevo a expressão falando sem parar. 

Aí, fico meses sem escrever. 

*

fotos: prints do documentário “Racines Lointaines“, de Pierre-Yves Vanderweerd

a copa do delay

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‘o objetivo final da arte é intensificar, e até mesmo exacerbar a consciência moral das pessoas’ [Norman Mailer, 1959]

na copa do delay, a vida dava pistas do que ia acontecer. você tinha trinta ou quarenta segundos de vantagem em relação ao futuro. a cada jogo, íamos praticando o exercício de antever, de imaginar as consequências de um simples movimento.

na copa do delay, às 11h e às 15h, era garantido: teríamos informações antecipadas. e elas viriam sem aviso em forma de som indefinido, mistura de grito com buzina, que entrava em todas as casas, não importava tamanho ou localização.

aquela bola rodando sem esperança no meio de campo?

em poucos instantes estará no fundo do gol.

e aquele jogo que parece perdido… hmm, conte até 30.

avisadas com antecipação, as pessoas foram ficando boas em crer que tudo pode mesmo acontecer, e não é possível controlar nada.

escutar tornou-se uma ferramenta mais valorizada do que o instagram.

e nunca mais um ser humano deixou de saber que, todo dia, o mundo lá fora está a nos contar coisas – você consegue ouvir?

caminando por la calle yo te vi

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[frases e histórias que ouvi ou que me contaram durante um sábado, primeiro dia de junho de 2018, todas testemunhadas em São Paulo, capital]

primeira

“o que é isso, mãe?”. a menina caminhava puxando o vestido da mulher, que tinha os passos acelerados. pareciam atrasadas para algum compromisso extremamente sério às 6 e 20 da tarde. a mãe apenas desviou o olhar para onde a filha apontava e respondeu “não sei”. mas dois passos depois resolveu parar, e ao parar, a menina trombou-lhe a perna, mas creio que a mãe não viu, dadas as ondas de confusão e nostalgia que vestiam seu rosto, como quando encontramos alguém do passado no estacionamento da farmácia. “isso é um cinema”, respondeu. naquele instante, era como se o mundo lá fora tivesse entrado num acordo: vamos ficar quietinhos para não atrapalhá-las.

os olhos da menina estavam fixos, e assim se dava também com os pés da mãe. elas apenas miravam não sei se para as luzes, para o entra e sai de pessoas, para os cartazes ou será que…

um instante é muito, mas acaba, e logo o mundo voltou a fazer barulho, a mãe voltou a sentir o tempo, e puxou a filha para seguirem caminhando pela calçada. a menina acompanhou-a, mas dessa vez apenas dos pés aos ombros, porque sua cabeça insistia em contemplar mais um pouco aquela vitrine cheia de luzes, pessoas, cartazes e um cheiro de pipoca e café.

segunda

“senhor, aqui estão seus cafés”, informou a atendente, estendendo a bandeja a um homem gordo e barbudo, cuja idade – não mais que 30 anos – se deixava ver no rosto juvenil, alguém de cujos olhos é possível dizer que não envelheceram, embora não se saiba se por dádiva biológica ou pelo pouco uso. o homem se aproximou do balcão e apenas olhou para a bandeja e os cafés. chamou a atendente.

– “vem aqui”.

seu tom de voz era firme, duro, e seu semblante transmitia irritação e impaciência. era possível supor que ele já tinha estado assim outras vezes. o figurino, misteriosamente, lhe caía bem. a atendente se aproximou.

– “olha, você precisa saber de uma coisa” – assim ele começou, e imediatamente a atendente encolheu os ombros, como fazem as crianças quando percebem a chegada da grande bronca adulta.

– “o preço desses cafés é um absurdo. uma pessoa que ganhe… sei lá… dois, três salários mínimos não pode vir aqui tomar café. cê ta me entendendo, moça? eu ganho 25 salários mínimos por mês e” – nesse momento ele pausou o discurso para enfim retirar a bandeja do balcão, indicando que estava de saída – “e posso te garantir que estou achando bastante caro”. com a bandeja nas mãos e os cafés com aspecto frio, saiu bruscamente, a buscar uma mesa. a funcionária seguia de cabeça baixa e não o viu debandar. permaneceu assim, provavelmente apostando que a bronca continuaria – ela apostaria também que ele estava nesse momento olhando-a com braveza.

um funcionário vinha trazendo os lixos que recolhera nas mesas e, ao ver a colega de cabeça baixa, aproximou-se. “tá sem nada pra fazer, amiga? pega o paninho, vai dar uma limpada nas mesas! acorda! acorda! acorda!”

terceira

na rua, eles param um instante para decidirem onde vão. onde vamos, pergunta um. não dá tempo do outro responder. uma mulher se aproxima. “boa noite, senhores”. ela veste jaqueta jeans, blusinha colorida e shorts. seu cabelo há dias não vê água e seu aspecto, em geral, não é saudável. seria fácil incluí-la no numeroso elenco de seres em modo zumbi que flanam tristemente pelas movimentadas ruas da região central da cidade. os dois lhe dão boa noite, e a mulher fala de novo. “sou de Santiago…do Chile”. faz uma pausa. “Santiago, do Chile… que fica no México… terra de Elvis Presley e Julio Iglesias”. nova pausa. seu olhar mira a longa avenida iluminada por faróis de carros. fica assim por alguns segundos, e depois retorna, ansiosa. “e então, vocês podem me ajudar?”. um diz algo como “desculpa, não tenho nada”, e o outro diz só “é, desculpa”. a mulher fita-os por um instante, e se despede com um “tchau pra vocês”, em perfeito português.

quarta

na reunião com os gestores, ela se cansou mais rápido do que seus colegas. os chefes abusavam do vocabulário acadêmico, mas tudo que ela sentia era a presença de apenas uma palavra.

eu

eu

eu

notou que o amigo ao lado acabara de entregar os pontos também. pegou um papel e escreveu:

egos

e discretamente passou-o ao amigo. ao ler, ele lhe devolveu um olhar de cumplicidade. pegou o mesmo papel e adicionou apenas uma letra.

cegos.

quinta

antes de dobrarem a esquina buscando o caminho de casa, ela disse:

– agora que você me ensinou a ver a vida como um filme, fudeu.

***

foto: Wim Wenders

como se o diretor falasse ação

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“A maravilha da infância é que tudo é real. O homem crescido é que vive uma vida de ficção, preso às ilusões e aos sonhos que o ajudam a sobreviver”.

[Ricardo Piglia em “Anos de Formação – Os Diários de Emilio Renzi”]

“Eduardo”. Na parte de fora do café do cinema da rua Augusta, ouço uma voz feminina a gritar meu nome. Depois aumentando o tom de voz e a distância entre as sílabas, “E-du-ar-do”. Entro no salão e a garçonete está segurando uma bandeja com uma xícara de café. Testemunho a sua tentativa mais desesperada de me encontrar: “Ê-du-ar-dô!”. Pessoas param de bebericar capuccinos para olhar uma mulher berrando. Me movimento em sua direção, mas não consigo alcançá-la porque o salão está lotado, fico preso entre pessoas que esperam na fila do próximo filme, então só posso levantar a mão. Ela me enxerga de longe e bufa: achei você! Aponto com o dedo para o lado de fora, ela vai dar a volta. Um livro aberto me espera sob a mesa.

Enquanto caminho, sinto chegar uma memória: alguma professora gritando primeiro “Eduardo”, depois “E-du-ardo”, e por fim “E-du-ar-dô!”, a sala toda olhando, eu levantando a mão, envergonhado por ter feito algo que eu não sei ainda o que é.

A garçonete se aproxima. Seu rosto é muito branco, um pouco enrugado, e ela é baixinha. Veste um uniforme inteiro preto que realça os pelos loiros de seus braços. De maneira delicada, com a mão esquerda ela tira a xícara de café da bandeja e a transporta para o topo da mesa. Faz o movimento em silêncio e está olhando fixamente para o livro aberto sob a mesa. “Eu também era assim”, ela diz, e me entrega um olhar amistoso. Devolvo um olhar de incompreensão. Ela, paciente: “Assim: de grifar as partes do livro que eu mais gostava e colar um marcador colorido. Igualzinho você faz. Até as cores. Nossa.”. Ela parece um pouco assustada. Resolvo falar alguma coisa. “Eu não era assim. É uma mania recente”. Ela põe a bandeja debaixo do braço; sua postura, antes perfeitamente reta, agora está curva e relaxada, como uma atriz que, durante o ensaio, escuta o diretor ordenar “ok, intervalo!”. Ela aproxima o corpo da mesa. “Durante os meus anos de faculdade”, diz, devolvendo os olhos para o livro, “eu fiz isso em tudo que li. Tudo, tudo, tudo. Tenho uma caixa em casa em que guardo essas coisas. Nunca mais abri. Mas, vendo esse livro agora”, ela passa os dedos pelos marcadores coloridos, “me deu vontade de chegar em casa e abri-la”. De repente ela parece estar muito longe daqui. Seu olhar vai embora pra bem alto. Uma garota se aproxima e pergunta se pode pedir o café na mesa ou se tem que comprar antes, no caixa. Como um balão de criança que é puxado à força, a garçonete interrompe o passeio que seu olhar fazia pelo céu azul. Retira a bandeja que está debaixo do braço, a coloca na altura do ombro e sorri timidamente para mim – como se dissesse “desculpa, mas o diretor está chamando e tenho que voltar ao palco”. Vira-se para a garota. “Pode ficar na sua mesa que eu trago ele pra você. Puro ou com leite?”.

Uma brisa inesperada invade o espaço, levanta as folhas do meu livro e alivia o calor abundante. A garota agradece silenciosamente e caminha para a mesa ao lado.

Ela senta-se ao lado de uma senhora. “Vamos esperar aqui que aquela moça vai trazer o café, vó”. Um garoto com cabelos longos, vestindo uma camiseta preta que celebra alguma banda obscura, junta-se às duas A avó apoia-se numa bengala marrom; o menino abre uma revista que, pelo layout que assimilo de onde estou, creio ser a Carta Capital; a menina põe o cotovelo na mesa, sustenta o queixo na palma da mão e seu olhar pega a estrada. Os três ficam assim por alguns minutos, até que a garçonete aparece com o café, e a avó fala alguma coisa para a neta, que não entende, “que, vó?”, a vó repete e a menina repete também, “que, vó?”, até que a senhora grita “yo voy a pagar el café”, ou algo assim, estou longe e agora confuso – ela falou em espanhol? Isso parece despertar  a neta, porque ela tira a mão do queixo e se levanta, “e vai pagar como, vó?”, sua resposta sai em português e seu tom é impreciso, como alguém paciente e ofendido ao mesmo tempo. A vó retruca algo incompreensível pra mim, e a menina encerra o assunto. “Eles não aceitam pesos aqui. Em Buenos Aires, sim, aceitam reais. Aqui, seu dinheiro não vale nada”. A avó se cala e finalmente dá o primeiro gole no café.

A menina volta a se sentar e olha para o irmão (acho que é irmão), que não tirou os olhos da revista. A neta, que deve ter uns 18 anos, volta a por o queixo na palma da mão. Gosto dela porque até agora não recorreu ao celular para escapar do tédio. A vó termina o café e volta a manejar a bengala marrom.

Permaneço olhando para eles enquanto nada se passa em suas vidas. Meu pensamento primeiro está na questão das moedas, contida no diálogo de agora pouco, e como ela é mais um símbolo da divisão que existe entre o Brasil e seus vizinhos; depois, fico imaginando as biografias de cada um. Fixar a atenção neles logo se mostra um involuntário acerto, porque só assim eu posso testemunhar o que acontece a seguir.

O menino interrompe a leitura e cutuca a irmã com a revista.

Ela vira-se para o irmão.

Ele levanta as sobrancelhas na direção contrária à dela, como quem diz em silêncio: olha ali.

Ela mira no rumo que ele orienta e entende rápido: no pequeno jardim da cafeteria, está o músico Tim Bernardes, da banda paulistana O Terno.

Os dois irmãos soltam risos envergonhados, típicos de fãs quando se deparam com o ídolo.

A avó, até então absorta no movimento tedioso da bengala, parece sentir a tensão no ar e mexe a cabeça para cima, semblante fechado, como quem diz: que que ‘cês tão aprontando?

O neto olha para a irmã, buscando ajuda.

Ela está rindo e mexe os braços de maneira a comunicar a avó que não pode explicar agora. Volta seu olhar ao irmão.

Ele a presenteia com um riso sarcástico – um riso fechado, que não mostra os dentes, mas indubitavelmente sarcástico.

Num plano sequência veloz, o menino abre a revista, folheia cinco ou seis páginas, dobra-a no meio e atira-a em cima da mesa, assustando a avó. Na página que paira, está Tim Bernardes numa foto de perfil, seu rosto dominando completamente a folha.

A avó olha para a revista, olha para o neto, que repete a estratégia das sobrancelhas. Os olhos castanhos da avó finalmente encontram o músico e depois à revista. Ela leva a mão à boca, expressando surpresa. Agora os três trocam risos silenciosos e sarcásticos. O menino põe a mão no bolso, tira um celular, arruma a revista em cima da mesa e – suponho – planeja tirar uma foto em que os dois Tim apareçam: o que está em cima da mesa e o que está em pé no jardim.

O menino com o celular na mão: a um clique.

Precisamente nesse instante, uma mulher se aproxima do músico e diz “vamos nessa?”.

[Tudo se desenrola à minha frente como se fosse um espetáculo oferecido pela cafeteria para me divertir: eu consigo ver o menino com o celular apontado, a sua irmã em êxtase, a avó mordendo o lábio como uma torcedora no momento do pênalti].

Tim, um sujeito de pernas enormes, dá um passo em direção à mulher, e isso é suficiente para ele sair do quadro.

A família bate as mãos em cima da mesa, e solta em uníssono o lamento de um estádio que viu a bola raspar a trave. “Ah, quase!”.

*

foto: Jessica Nolte

poema escondido nas palavras cruzadas do jornal de ontem

a menor quantidade de uma substância simples

o escritor carioca Comparato

o mecanismo que imprime a um barco a direção da rota

noz também chamada nogueira-americana

heroico, fabuloso

satisfeito, contente (figurativo)

um objeto qualquer

as iniciais da atriz Thurman

a peça de roupa que cobre a cintura e as pernas

o saquinho com ervas aromáticas

conjunto de três coisas

elevar, erguer novamente

o nome da letra K

mítico heroi e caçador troiano, transformado em cervo e devorado por seus próprios cães

pessoa viciada em crack (gíria)

elemento químico usado em medicina como germicida

onomatopeia do canto do grilo

o nome da atriz Wilma

registro geral

tecido durável

*

foto: Alessandro Simonetti (EUA)

a carruagem do despedaço

A segunda vez que todo mundo lá em casa concordou com alguma coisa foi por causa do Stuart.

Não é que só houvesse discordâncias. Mas até ali a unanimidade era uma benção que caía sob nossas cabeças apenas em ocasiões corriqueiras, como quando definíamos em uníssono o sabor do sorvete que a mamãe deveria comprar no supermercado, ou então ao percebermos, durante um almoço de terça-feira, termos todos a mesma impaciência com a personalidade irritável da síndica do prédio.

Não há dúvidas que o Stuart precisava mesmo ser uma grande decisão coletiva.

Porque ter o Stuart era: trazer-um-cachorro-para-dentro-de-um-apartamento-onde vivem-Dois Adultos Não Totalmente Fãs de Cachorros Especialmente a Mulher com Duas Crianças Relapsas e Um Adolescente Em Início de Rebeldia.

Já a primeira vez que todo mundo concordou com alguma coisa foi quando o papai perguntou se a gente queria ir pro sítio do Samuel.

O Samuel era amigo do papai mas ele se parecia mais com a gente, porque:

– seus cabelos sempre estavam despenteados, como os nossos ao acordar;

– ele tinha um sítio com cavalos, seringueiras e lareira, e ele dizia que a gente podia fazer tudo o que quiséssemos, e isso é precisamente o que as Crianças achavam que deveria ser o primeiro mandamento do universo caso ele não fosse governado pelos Adultos.

Então vamos pro sítio? Entrávamos no carro em algazarra organizada – sim, porque éramos Crianças mas Crianças Com Conhecimentos Básicos, e sabíamos que qualquer erro do nosso time poderia culminar na temida Irritação dos Adultos, um fenômeno capaz de gerar catástrofes interplanetárias que começavam com a frase “ah, é?, então não vamos mais”.

E a estrada, ainda que curta, desdobrava-se em paisagens que de tão estonteantes nos serviam como sedativos naturais.

Nunca levamos o Stuart para o sítio do Samuel. Nessa época, o papai e o Samuel não eram mais amigos. Uma briga boba, eu acho.

Mas também nunca levaríamos o Stuart para lá pelo mesmo motivo que nunca o levávamos a nenhum lugar público: o bicho latia sem parar pra qualquer coisa que se movimentasse, especialmente motos, e nesses espaços abertos tudo que ele fazia era latir e correr, latir e correr. Às vezes engasgava. E depois latia e corria.

Quando mudamos do apartamento para uma casa com jardim, especificamente a questão latir de maneira endiabrada nunca se alterou.

Ficamos uns 5 anos sem notícias do Samuel. Então um dia, em meio à fumaça artificial que planava pelo salão de uma tradicional festa de debutante interiorana, o Adolescente Agora em Fase Já Avançada de Rebeldia avistou o velho amigo de seu pai.

Reconheceu-o no mesmo instante.

Os mesmos cabelos despenteados.

Aproveitando que há pouco havia logrado um honroso terceiro lugar numa competição envolvendo grandes copos de vodka, e agradecendo à nuvem de gases que ocultava do público seus movimentos titubeantes, o Adolescente Agora em Fase Já Avançada de Rebeldia caminhou passos confiantes até encontrar Samuel no fundo do salão. Parou a mão em seu ombro e disse, teatral: lembra de mim?

Samuel demorou a reconhecer aquele menino que tinha somente o topete do cabelo pintado de amarelo.

A ficha do Samuel caiu segundos depois, e eles se abraçaram. O Adolescente, agora já não tão corajoso de sua capacidade de falar frases com sentido e ao mesmo tempo permanecer em pé, resolveu escapulir logo dali e terminou o encontro enfumaçado com um “só vim aqui pra falar deixa de besteira vocês dois”.

Dias depois, papai entrou na sala e perguntou: quem quer ir pro sítio do Samuel?

No domingo seguinte, papai e o Samuel passaram a noite bebendo e relembrando histórias. Na quarta-feira, também. Na quinta. No sábado. Na semana seguinte. Na outra. E assim pelos anos seguintes. Viajaram juntos. Chegaram a fazer planos ensandecidos de ir ao México de carro.

Um dia, Samuel contou que estava doente.

Já o Stuart nunca ficou doente.

Numa segunda-feira de muitos anos depois, o Pai ligou para o Adolescente, agora já um Adulto Convencional Com Poucos Brilhos de Rebeldia, para anunciar que não havia mais esperanças. Era só uma questão de horas para o Samuel.

Às 6h29 da terça-feira, o papai tomou seu café pensando sobre como é estranho pro coração da gente a coexistência do desengano e da fé. Abriu a porta do quartinho onde ficava a casinha do Stuart. O cachorro se espreguiçou calmamente e deixou o casulo. O forte frio que fazia naquela manhã deixava seu andar mais vagaroso. O Pai e a Mãe deram-lhe comida e água, e foram trabalhar.

Às 11h18 daquela terça-feira, o Stuart avistou dois passarinhos sobrevoando o jardim. Apesar da idade avançada, ele nunca se furtou a correr atrás de qualquer coisa que se movimentasse. Deu o primeiro pique e viu os pássaros sumirem pra depois do telhado. Stuart gostou da sensação de correr no frio, daquele calor deslocado. Pensou em ficar à espreita para quando as pequenas aves retornassem. Mas sentiu-se cansado. De novo. Já não era de hoje. Resolveu se deitar no chão um pouquinho. E dormiu.

Às 17h44 daquela terça-feira, deitado na cama do hospital, Samuel teve um sonho curioso. Era manhã. Muitas pessoas no sítio. Música. Uma festa. Caminhava por entre eles. Logo avistou uma cadeira, e sentou-se. Todos se viraram para vê-lo. Foi só então que reparou quem estava ali: sua mulher, suas filhas, seus netos, seus amigos da primeira escola e os que conheceu na última viagem. E o papai. Todo mundo lhe sorria com muita tranquilidade. Sorrindo de volta, Samuel sentiu o corpo serenar. Encostou-se na cadeira. E dormiu.

 

*

“now we rise

and we are everywhere”

[nick drake – from the morning]

dois exercícios no laboratório secreto

aula número 1 | curso: Laboratório Secreto (Invenção na Literatura Hispano-Americana)

exercício: você está numa nave em direção a Marte. a nave começa a pegar fogo. você precisa mandar uma última mensagem pra Terra. 

Alô, alô, humanos, é o seguinte: tá pegando fogo em tudo aqui. Não vou conseguir chegar em Marte. Essa é a minha mensagem pra Terra, tá? Me desculpem. Agora eu me dirijo à maior responsável por toda essa loucura. Mãe, deu tudo errado, mãe. A gente nunca devia ter mexido nas coisas do vovô. A gente sempre soube que ele era maluco. Eu sei, você vai falar “mas todos os testes que fizemos com essa nave no galpão do sítio deram certo”. Eu sei, mas a gente não sabe nada de aeronaves, nem ele sabia nada, ele achava que sabia. Eu sei, você vai falar “mas ele deixou todos aqueles manuais detalhados”, eu sei, a gente costumava destrinchar juntos aqueles compêndios, sempre depois dos almoços de domingo, lembra? Eu também acreditei neles, e na verdade, bom, eu vou morrer mesmo, então, mãe, a verdade é que tudo ia muito bem na viagem pra Marte, passei por vários planetas e tudo certo, cruzei estrelas e tudo certo, ganhei confiança, relaxei, resolvi botar um som e fumar um cigarrinho, e aí o que aconteceu? Passou uma nave a milhão na minha frente – sim, você ia adorar ver isso, tem várias naves rodando esse mesmo caminho, o vovô deve ter feito algum curso à distância ou algo assim – e eu assustei, o cigarro caiu no chão e… bom, cê entendeu. Beijo, mãe, e se eu fosse a senhora eu parava de fumar imediatamente.

aula número 2 | curso: Laboratório Secreto (Invenção na Literatura Hispano-Americana)

exercício: dar voz e desejos humanos a um objeto

Sou um saco plástico. Mas nunca fui lixinho, graças a Deus. Dei sorte: no meu primeiro dia de supermercado, o Julio me pegou pra carregar uma garrafa de whisky. Depois me pôs no carro e após uma longa travessia, paramos no meio do nada. Ali vivemos juntos por dias. Em seu acampamento solitário, ele me deixava voar ao sabor do vento, mas nunca muito longe. Ele sempre me pegava no ar e me trazia de volta. Um dia, ele me amarrou com delicadeza no galho desta árvore aqui, e disse:

– Vou embora. Mas eu volto, e é você que vai me lembrar onde fica o meio do nada.

Desde então, passo os dias na espera e gosto mais quando os carros passam com crianças dentro. Elas olham pra mim com curiosidade. Nenhum irmão meu deve saber o que é isso.

***

arte de sarah nicole philips

quatro pontos dentro da curva

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“Agora penso que é bom perder a confiança no solo, que é necessário saber que de um momento para outro tudo por vir abaixo”. (Alejandro Zambra em “Formas de voltar pra casa”).

[um: rua, olho, sugestão]

Sumirê

É o nome de uma perfumaria

Na rua Teodoro Sampaio

Amanhã passo lá

E pergunto se eu posso

Usar esse nome

Num poema sem qualidade

Cuja única ambição

É achar uma expressão

Que dê conta

Dessa vontade

De virar folha em branco

[dois: observação, imaginação, ação]

Sábado, 25 de março de 2017, 6h30. Bahia acorda e a primeira coisa que seus olhos registram é o teto branco do seu quarto. Repara no branco – acha-o muito bem pintado. Toma um banho rápido, veste as roupas de trabalho, bebe um café na velocidade de um suspiro, escova os dentes, não dá tchau nem para a mulher, nem para os filhos, menos por descuido do que para não acordá-los, ganha a rua, caminha até o ponto de ônibus, espera sete minutos e trinta e quatro segundos até que o carro pare na sua frente e ele se deixe entrar, pagar a passagem e sentar na poltrona do fundo, a última, o que lhe recorda os tempos de escola, quando chegava na sala de aula também muito cedo, também muito disposto, e se escondia lá atrás onde a professora não pudesse vê-lo. Mais de uma hora depois, Bahia desce do ônibus e caminha por treze minutos e cinquenta segundos até parar em frente ao prédio localizado à rua Girassol, número quatrocentos e oitenta e oito, onde, das nove ao meio dia, Bahia fará com que a vida dos moradores do apartamento cinquenta e um fique um pouco mais colorida, porque, por suas mãos, uma mesa branca será a partir de agora reluzentemente amarela e uma porta de um marrom taciturno deixará pra trás qualquer vestígio de marrom ou taciturnidade porque pelas mãos de Bahia agora ela é verde clarinha, clarinha.

[três: memória, busca, coração]

Lembra de você me chamando pra ir ao cinema depois de amanhã? Você falava outra língua e eu temia a minha má tradução. Dois dias depois, você estava lá, e eu agradeci silenciosa e efusivamente à professora Maria Laura Rodrigues Alves.

[quatro: ontem, hoje, agora]

Vivendo eternamente dentro do peito do homem, suas versões passadas raramente celebram em conjunto. Isso se dá, e não deixa de parecer óbvio, porque cada um dos que protagonizou a vida do homem antes do momento presente são de idades, épocas e culturas diferentes. A sua variante criança, por exemplo, adora quando os domingos passam devagar na mesa da cozinha da avó. Já o adolescente não suporta uma coisa assim – preferia jogar videogame com alguns amigos, o que desagrada em completo seu sucessor, o universitário, que vê nesse ato um desperdício de tempo enquanto questões políticas, sociais e espirituais clamam por atenção. De modo que ao homem era impossível não notar o que se passou hoje: normalmente barulhentos dentro do seu coração, todos eles amanheceram em festiva harmonia. A mulher, que estava à frente do homem naquele momento, os olhos plantados nos seus, não sabia nada disso, mas sorria.

“How is it feel to disappear?

Seriously, just disappear?” (The Acorn, “Oh! Napoleon”).

*

imagem: Taste of Cherry / 1976 / Abbas Kiarostami

nada além da estrada [uma fabulosa viagem]

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[Londres, onze de dezembro de dois mil e dezesseis]

vai andando até acontecer o que mais desejava: se perder. não sabe onde está e não sabe voltar para onde estava. tampouco sabe pra onde gostaria de ir. nenhum caminho é um caminho. nos fones, a voz preferida parece cantar o que ele vê, “its quiet here, i look thru my glass at patterns all so well defined, please send my winter coat soon as you can, i find I have no other lines”. encontra um café. a atendente mais bonita de todas lhe abre a porta, mira o livro que ele carrega nas mãos e sorri-lhe o sorriso perfeito, aberto, quente como está lá dentro em comparação com a rua, onde os poucos graus que restam castigam-nos até o humor. não sabe se ela sorri porque a capa do livro é excessivamente colorida, tipo carmem miranda, e imagina que os gringos ainda devem reter esse tipo de imagem enclichezada de nossos trópicos – como a teimosa admiração pela bossa nova. senta-se na mesa mais próxima à porta, tira a mochila tira a blusa tira os fones e no rádio do café vai tocando aquela música que a gente dança em formatura, “hey baby, i wanna know if you would be my girl”, e ele sente vontade de levar a atendente prum baile daqueles, gravata na cabeça, copo balançando na mão, a maquiagem dela já toda borrada, mas não dá pra continuar imaginando mais nada porque ela se aproxima e quer saber: lunch or breakfast?

pra ouvir: the scientist writes a letter

[Porto, dezesseis de dezembro de dois mil e dezesseis]

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caminham como se não houvesse porque não caminhar. deixam que o instinto seja a voz principal na descoberta de uma cidade. a identificação com uma cidade se dá pela sua disponibilidade em percorre-la, é o que eles filosofam enquanto miram quietos as casas coloridas, enquanto escutam as conversas do lado de dentro dos balcões dos cafés, enquanto percebem os motoristas a fumar dentro dos seus carros com vidros fechados. as roupas pra fora das janelas denunciam a vida comum que transcorre por ali todos os dias, e eles veem a beleza do viajar exatamente nisso: quem seríamos nós se aqui vivêssemos? onde estaríamos? que camisas deixaríamos a secar para a rua? o vento sopra mais forte. o sol vai se por. eles pensam na mãe.

pra ouvir: ai quem me dera rolar contigo num palheiro

[Londres, vinte de dezembro de dois mil e dezesseis]

a cabeça está como um quarto quente e vazio que não quer receber móveis. é um quarto, não fala, é claro, mas comunica-se, como a chuva que se faz anunciar sem manejar alfabeto. e o quarto diz sem curvas: dê-me a ausência, dê-me o silêncio, dê-me o nada. lhe agradeço pelas paredes a aquecer e pela vista da janela de onde atiro os olhos para o longe como se fosse alimento.

pra ouvir: summer dress

[Londres, vinte e quatro de dezembro de dois mil e dezesseis]

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vou esperar vocês aqui nesse café, digo, mas logo depois estou fora do café, estou de volta à rua e começo então a trabalhar neste que tem sido o grande objetivo das minhas viagens: me perder. não é tarefa fácil, veja, porque o ser humano é complicado até em missões de fracasso. é de sua natureza começar a reconhecer lugares e nomes e padrões arquitetônicos que passam a lhe guiar ainda que informalmente, ainda que intuitivamente, de modo que é preciso estar atento até para se perder, como afinal, deve-se estar para tudo que se passa nesse mundo. dobro a esquina e vejo que a rua que se apresenta a mim é longa demais, o que significa que não há retornos fáceis, o que significa que está aí uma boa rua para o grande objetivo da boa viagem. não vou dar em lugar algum, por isso sigo. alguns passos depois descubro uma pequena passagem chamada Colville Place, não há nada acontecendo ali, então entro, e em poucos metros aquela estreita rua me mostra portas coloridas (sete portas, cada uma de uma cor, a vizinhança parece dialogar acerca das questões estéticas da pequena rua – um parêntese dentro do parêntese: será que alguém lê isso aqui até o fim?), o bar onde George Orwell e Dylan Thomas beberam por anos a fio, uma loja de música dirigida por filipinos, uma galeria de pôsteres musicais (aproximo o rosto da vitrine para ler o aviso em papel colado na vitrine: “abrimos de segunda à sexta, e às vezes aos sábados, se estivermos de bom humor”), uma casa de janela aberta me apresenta sua sala lotada de livros e abajures e sua cozinha com poucos armários e uma xícara de café a descansar na mesa branca, não há ninguém lá dentro, não há ninguém na rua e por isso eu canto em voz alta um dia em Provença perto de Brignoles o primeiro homem a pisar no sol só pra ver o gelo da dor derreter.

pra ouvir: um dia em provença

[Berlim, vinte e oito de dezembro de dois mil e dezesseis]

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[1] morro de estúpido espanto: Berlim não é em preto e branco. [2] a cidade apresenta uma nova definição pra liberdade: depois de visitar os museus do holocausto, eu posso caminhar e ninguém pode me parar. [3] estar entre irmãos é mergulhar profundamente e às vezes a profundidade é maior que a cidade. perco o ar. mas há sempre eles para emprestar-me o respirar. [4] caminho por ruas históricas e penso: qual seria a minha se eu tivesse nascido aqui? ainda ouviria as mesmas músicas? haveria em mim o dom de desenhar? teria curiosidade sobre o brasil? [5] em 1941, a família krelitz vivia tranquilamente: o pai e a mãe vendiam pães, as crianças brincavam nas ruas e sempre chegavam em casa sujas de terra, para alegria da mãe e desespero do pai. até que um dia todos foram mortos uns em frente aos outros. meu estômago pesa. [6] pra Berlim / as ruas significam você / mas e pra mim? / fim

pra ouvir: april fool

[Algum ponto entre Edimburgo e Londres, primeiro de janeiro de dois mil e dezessete]

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O ônibus entra na estrada. São 10 horas da noite, está bastante escuro lá fora e eu quase não posso enxergar as paisagens rurais que passam pela minha janela. Gostaria de vê-las, é certamente uma das visões que eu mais desejei conhecer nesta viagem, então redobro o esforço do olhar. Tento divisar os elementos: aquilo ali no meio da penumbra são árvores? Acho que agora vi uma casa. As luzes parecem acesas. A paisagem possível aos olhos é na maior parte do tempo a de um pasto imenso que, imagino, deve ser brilhantemente verde, porque no inverno todas as cores brilham mais. Uma das coisas que mais gosto é ouvir música enquanto estou viajando, especialmente quando estou num ônibus. Me encanta – e devo dizer que talvez eu seja algo abençoado nesse quesito – como quase sempre a sequência aleatória das canções acaba por formar uma poderosa narrativa, às vezes casando-se com a paisagem, às vezes encontrando-se com temas que meu espírito está a aquecer; porque isso também gosto de fazer enquanto viajo de ônibus: deixar que meus pensamentos flutuem livremente, como quando dizemos às crianças que elas podem fazer o que bem entenderem. “Estou perdido no setor de mansões isoladas”, canta Ruspô em “Brasília é Luísa”, e eu estou perdido em algum ponto da Escócia, rumando a Londres, sem ter a mínima pista de onde exatamente meu corpo está passando agora. Guardo essa sensação, penso sobre ela. Ao meu lado, minha irmã. Na outra fileira de poltronas, meu irmão. Olho pra eles: ela dorme, ele curiosamente estava me olhando naquele mesmo instante que eu o olhei, então eu aceno pra ele e, apesar da escuridão que domina também o interior do ônibus, posso ver que ele me acena de volta. Retorno minhas atenções para a janela. Uma luz se anuncia ao longe e logo o ônibus está passando por um vilarejo, são poucas casas, quase todas iguais, feitas de pedras e portas coloridas, às vezes algum carro na frente, mas quase sempre não. Poucas luzes acesas. Deve ser porque hoje é o primeiro dia de 2017. Penso que gostaria de conhecer as pessoas que moram ali, e não sei bem explicar porque, mas devo admitir que tenho certo fascínio inocente por pessoas que vivem em lugares nos quais eu gostaria de viver. Talvez seja porque, ao falar com elas, ao notar seus modos de sorrir ou de aparar a grama, eu consiga me transportar para aquele cenário e imaginar que, por alguma razão, eu não virei aquela pessoa, eu não sou dono daquela história, mas poderia. Me torno o outro por um instante fantástico, é isso me deixa mais próximo de mim. É intrigante pensar que nós todos poderíamos ter sido quaisquer outros. Lembro então da noite anterior, que foi a última do ano de 2016, nós três nos aprontando para o reveillon de Edimburgo. O plano era ir para a rua ver os fogos e depois a um clube de jazz onde tocaria uma banda que conhecemos na noite anterior, ou seja, no penúltimo dia do ano, e que nos chegou de maneira totalmente ocasional. No dia em os topamos pela primeira vez, o grupo se apresentava no bar em frente ao nosso hostel. Fomos lá sem muita expectativa, apenas para beber e esquentar os corpos do frio que apertava mais à noite, sem ter ideia de que o bar tinha música, e que haveria um show de uma banda que fazia exatamente o som que escolheríamos para ouvir num momento simbólico como a virada do ano. Encontrar essa banda, nos divertir com eles durante e depois do show e saber que eles tocariam na virada do ano, e que faziam questão de nos colocar como seus convidados da festa, tudo aquilo nos soou como magia, talvez porque não buscávamos nada, ou talvez porque, se instados fossemos a escolher, certamente pintaríamos uma cena exatamente à que se desenrolava à nossa frente: música, amigos, bebidas, tudo muito leve, tudo muito natural, tudo muito excitante também. Porque falamos muito sobre a expectativa que cercava esta viagem. Era a primeira vez que viajaríamos juntos, só os três irmãos, e ela se daria por lugares que nunca imaginamos estar um dia, como Londres, Berlim, Glasgow, Edimburgo. Era impossível que durante a preparação da viagem não criássemos, inocentemente, pequenas expectativas de situações ou sensações. Lembro de dizer um dia, acho que faltava um mês e pouco pra viagem começar: vai ser completamente diferente do que a gente imagina. Pois então, sob esse ângulo, a história da banda, de certa forma, subvertia esse mandamento, justamente porque era algo que tínhamos, cada um a seu modo, imaginado silenciosamente por meses e meses antes do início da viagem. No outro dia, no réveillon no clube de jazz, tomamos um dos maiores porres das nossas vidas, dançamos, fizemos amigos, voltamos pra casa cambaleantes mas bastante precisos na tarefa de cantar músicas dos Paralamas pelas ruas geladas de Edimburgo, sabendo que, aconteça o que acontecer neste e nos outros anos das nossas vidas, teremos para sempre conosco a sensação de que, naquela noite, não poderíamos ser mais felizes. É claro que omito a ressaca avassaladora que nos atingiu no dia seguinte, mas agora estamos aquecidos em poltronas confortáveis neste ônibus cujas rodas trafegam por onde mesmo? – sigo sem saber. Deve estar muito frio lá fora. Nada me parece mais bonito agora que o silêncio. O nada é tão bonito quanto o silêncio. Estou tentando criar frases de efeito. É um dos sinais de que o sono chegou.

pra ouvir: brasília é luisa

[Londres, cinco de janeiro de dois mil e dezessete]

você me disse que andou pela rua colorida e resolveu pegar o ônibus vermelho até o sorriso da moça de quem não guardou o nome mas sim o gosto do café que ela lhe preparou e que lhe preparou pra caminhar caminhar caminhar até chegar em bricklane onde você se sentou para ler nick drake para sentir nick drake para olhar e conversar com a garota das revistas e você disse que lá você sempre esteve e lá você sempre estará

pra ouvir: daisy

[Londres, oito de janeiro de dois mil e dezessete]

ontem, caminhando até a estação, com as mãos no bolso pra me proteger do frio mas ainda mais pra espantar a ansiedade de te encontrar, havia uma frase em inglês pichada numa placa de ferro jogada na rua. dizia: “i am your father. your mother. your brother, sister, cousin, friend. i am different… and exactly like you. i am your family”. horas depois você disse que não sabia nada da gente, e eu disse que não sabia nada de vocês também. somos diferentes, mas iguais. dois perdidos no meio da rua a caminho do cinema a chuva descia e a gente ria de sei lá o quê. por sentir talvez que o filme a ser visto fosse outro – fosse a gente ali no meio da rua do mundo no meio da chuva a girar, que maravilha, que maravilha. o abraço longo ensopado naquela rua escura de casas iguais. mas você tem que ir embora. why is the moon so bright, why are you so nice? te solto a mão a imaginar se te encontro outra vez pela vida. o dia tem que ir embora – de novo. e daqui a pouco vou eu também. tantas coisas pra fazer, pra ver, pra aprender. pego ônibus sem saber se estou indo certo. depois desço e escolho caminhar. tiro as mãos do bolso e ponho os fones. as canções são como amigos a dizer para nós coisas que só se alcança depois da quinta cerveja. “everything is gonna be undone”, primeiro cantam. depois “god bless us all, wherever we will be”. chego em casa, abraço os meus, brindo copos, fumo a madrugada, escrevo versos, fazemos uma canção entre irmãos. ela começa assim: “nada / além da estrada / faz enxergar”. fecho os olhos por um instante. e depois abro-os pra sempre.

pra ouvir: middle names

[Tanworth-In-Arden, onze de janeiro de dois mil e dezessete]

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[1] como se a sua vida fosse um longo trajeto a se atravessar somente para que ele chegasse ate lá. lia e não acreditava:  Nick Drake. a lápide. os olhos recebiam sensações inéditas que eram enviadas diretamente ao coração, que não sabia fazer nada melhor do que explodir e se espalhar pelo céu que se vestia de um azul tão raro quanto raro era ter chegado ali. acho que o vento soprou bruscamente duas vezes e trocou as folhas de lugar. as folhas daquele lugar. a lápide. o mais próximo possível de Nick Drake. eu finalmente vim te ver, ele pensou, e agora gostaria de me demorar. então encostou-se na longa raiz da árvore, puxou papel e lápis e escreveu palavras das quais não se recorda de ter visto previamente em pensamento. [2] como você está, a irmã perguntou, logo depois que eles deixaram o cemitério e já estavam sentados nas largas cadeiras do único pub daquele vilarejo inglês cravado no meio do nada. talvez ela estivesse preocupada que o encontro com Nick Drake lhe recuperasse memórias tristes. o outro irmão pôs a mão no copo cheio de cerveja, mas não chegou a levanta-lo: também o queria saber. e o que se ouviu de resposta foram exatamente meia dúzia de palavras: eu nunca me senti tão feliz. [3] you can take a road that takes you to the stars now, i can take a road that’ll see me through. i can take a road that’ll see me through. i can take a road that’ll see me through.

pra ouvir: road