Memórias de Franca I


Você já reparou nas pessoas que falam sozinhas no meio da rua? Elas sempre nos causam espécie: às vezes porque bradam frases sem sentido, às vezes porque pregam o fim do mundo, às vezes porque dizem palavras e histórias tão engraçadas que é impossível não rir.

Acho que todo mundo se lembra de um louco que viu na rua.

Eu me lembro. Eu tinha uns 10 anos de idade e sofria com o peso da mochila lotada de livros e cadernos escolares, quando o vi pela primeira vez descendo a passos rápidos a rua do cemitério da saudade. Ele devia ter uns 60 e carregava uma sacola desbotada, dessas que antigamente a vovó Lena e o vovô Pedro levavam à feira.

Não demorei em perceber seus gritos, que saíam sempre em linha reta, “atingindo” um ser invisível que estava invariavelmente à sua frente. Não olhava para trás – nem por reflexo – e não se distraía com a presença de outras pessoas descendo a rua ao seu lado, mais assustados com ele do que com os milhares de mortos dando sopa por ali. E sempre, sempre proferia palavras de ódio. “Vou te matar seu canalha de uma figa. Você achou que eu não ia perceber que você era um pilantra? Seu filho de uma égua”.

Por muitos anos eu o vi passar, quase sempre na mesma rua. E ele continuava carregando aquela mesma sacola cada vez mais desbotada.

*

Por que uma pessoa louca sai às ruas? Se ela é louca, como se dá o processo de decisão de sair de casa e, sei lá, andar na rua do cemitério? Quando é que ele decide carregar uma sacola? Será que ele tem uma quartinho cheio de sacolas desbotadas? Será que em alguns dias, só pra variar, ele decide carregar uma pasta de couro e descer na rua do cartório?

Como meu bairro era pequeno, eu sabia que aquele velhinho doido não morava nas redondezas. Ficava intrigado: como ele, que é louco, chegava até ali todos os dias? Como é um louco pegando ônibus? Será que ele tem dificuldades para entender em qual ônibus deve entrar? Será que dentro do ônibus ele também grita impropérios contra os “pilantas filhos de uma égua” ou viaja discretamente sentado, ansioso pelo momento de ganhar as ruas e finalmente ser ele mesmo?

Se em algum momento ele teve a capacidade de decidir sair de casa, escolher qual sacola levar, premeditar seu destino (a rua do cemitério), qual ônibus tomar e em qual ponto descer, então… de louco ele não tem nada.

Besta era eu, um moleque de 10 anos que não usava a rua pra gritar poucas e boas contra aquele babaca do Guilherme Guerra e seus amigos idiotas: garanto que ninguém ia me chamar de louco!

3 comentários sobre “Memórias de Franca I

  1. Eu fico imaginando você com seus pensamentos em qualquer idade que seja. Certamente poucos reparavam no louco da sacola; e os que observavam não deviam ter o seu tamanho. Você guardou um retrato de uma fase sua, em que circulava e cruzava com o sujeito.. De certo os loucos são pra isso, para nos questionarmos, pensarmos.. não esquecermos nunca deles, e nunca saberemos o destino deles antes ou depois do sacola-moment.

    Como sempre adoro ler o que escreve, em poucos segundos chego ao fim do texto e sempre empolgada.

    Te amo

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